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Contos das Estrelas

Neste blog são apresentados conteúdos literários. Para qualquer assunto podem contactar o autor via ruiprcar@gmail.com. Aceitam-se contributos de outros autores, de 4 a 24 de cada mês, relativos ao tema Natureza ou Universo :-)

Contos das Estrelas

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COP30 e Mutirão Global e Concurso Literário

por talesforlove, em 30.11.25

 

A COP30 realizou-se e ficou um conjunto de decisões e informações sobre a nossa realidade ambiental atual. Um dos resultados mais relevantes deste evento, parece ser a iniciativa o Mutirão Global que surge pela sensibilidade ao fenómeno do calor extremo e algumas dificuldades em encontrar um consenso global para reduzir o consumo de combustíveis fósseis.

 

Aqui pode ser encontrada diversa informação:
https://brasil.un.org/pt-br/305077-na%C3%A7%C3%B5es-unidas-e-cop30-mobilizam-mutir%C3%A3o-global-contra-o-calor-extremo

 

É muito inspirador ver os jardins urbanos que combinam a beleza das plantas com alguma arte. Como uma empatia entre áreas de conhecimento classificadas como distintas, nomeadamente a biologia e a arte, e consequentemente entre todas as pessoas que por ali passam, independentemente dos seus interesses ou atividades do dia-à-dia.
Claro que uma das preocupações sublinhadas na conferência foi a de conciliar proteção da casa comum com qualidade de vida das populações ou resultados económicos, algo nem sempre equivalente. Fenómenos como as três semanas de calor extremo este verão, em Portugal, ou a subida do nível médio do mar, a afetar países formados por ilhas com baixa altitude, colocam pressão sobre as soluções.
No final, fica-se com o sentimento que estamos perante outro encontro a meio de um percurso, que não se esgota nos poucos dias em que o tema da sustentabilidade ambiental se torna o foco de parte importante do planeta terra.

Voltaremos a este tema.

 

Entretanto continua o Concurso Literário Natureza África agora com um prazo até 15 de Dezembro. Mais informação em:
https://contosdasestrelas.blogs.sapo.pt/concurso-literario-africa-mocambique-194439

 

 

Ficam hoje estes poemas e contos recebidos no contexto do Concurso Literário Natureza 2025. Os resultados devem ser publicados na segunda metade de Dezembro.

 

CURSO D’ÁGUA, por Elizete C.


O lugar onde cresci
Era um lugar sem mar
E sem verde para olhar.
Havia a luz dos vaga-lumes,
Pardais malabaristas,
E três rios (um ao lado do outro)
Com nomes de peixe, na língua tupi.
As moças ribeirinhas
Banhavam-se nos rios da minha infância.
Os rios seguiam o curso d’água sem pressa,
Ajustando-se com simplicidade
A pobreza do lugar.
O sol iluminava as ruas sem calçadas,
E a lua no espelho das águas dos rios
Era a beleza que faltava mirar.
Eu pisei o barro da terra em cores.
Eu molhei meus pés nas águas enchentes.
Mas não conheci as águas dos rios
Que me encharcam a alma
De uma saudade água nascente.

 

RAIZ DE SILÊNCIO, FLOR DE AUSÊNCIA, por Thaise N.

 

A natureza humana é uma caverna translúcida,
onde ecos sussurram em línguas sem nome,
o medo, pedra vestida, às vezes dança,
enquanto a memória escava túneis — e some.

 

A terra não é chão: é o espelho onde se enreda
o espanto do tempo em camadas invisíveis,
cada folha é um verso que cai e se levanta,
cada raiz, um braço que abraça a ausência.

 

O amor, esse alquimista sem rosto,
transmuta o silêncio em melodia vibrante,
é chama que não queima, mas apaga o vazio,
é um rio que corre ao contrário de sua fonte.

 

Somos ar e barro, sombra e semente,
língua que goteja em gestos de luz.
O peito é bosque onde cresce o silêncio,
e a alma, um fruto que amadurece em pudor.

 

No encontro do homem com o pulso da terra,
a noite germina, a solidão se abre em flor.
O tempo é a raiz que sonha com alturas,
e o chão se dissolve nos braços do Inventor.

 

Na linguagem das coisas, a cadeira senta-se,
o silêncio fala, e a memória esquece-se.
Somos a dança entre o afeto e o absurdo,
um universo que cabe no ventre do mundo.

 

Por isso choro — não lágrima, mas vento,
pois no coração habita o som infinito,
e na fusão da carne com o verde eterno,
o humano desvela o segredo escondido.

 

 

Outros poemas recebidos:

 

NA CURVA DE UM RIO, por Isabella F. (Brasil)

 

Na curva de um rio, três amigos se calam enquanto as águas e a natureza falam de sobreviventes
Na curva de um rio, as águas revelam cantigas represadas em manhãs ensolaradas de primaveras distantes
Na curva de um rio, as águas são acordes, sonoridades são travessias, na outra beira estão as memórias erguidas de vento
Na curva de um rio, três amigos se curvam ao chamado vivo da natureza, e se tornam águas, pássaros, pétalas amarelas sobre a terra úmida
Na curva de um rio, tudo se movimenta na quietude que se faz e, na certeza do mar, em seu borbulhar, as águas vão em paz.

 

Borboletra, por Liliane S. (Brasil)

 

Largar
ta
no
em ti
n’erário
da borboleta.

 

Não é alter
nativa,
e sim uma
Oriente ação.

 

Vou ar
Fogo
Terra
Água
E
ter
Força
para,
ao
cansar,
seguir


-ando.

 

O corpo é casulo
na natureza da vida.

 

Nesta mesma vida,
sem uma outra ex-pressão,
borbo letramos.

 

Sugestão para este final de ano e Natal:
comprar produtos mais amigos do ambiente.

 

Até breve.

“A grande extinção” por Joaquim B. - Antologia 2019 - Portugal

por talesforlove, em 09.02.21

A grande extinção


Albbano chegou cedo ao “Fetal”, com o coração de sangue frio em agonia. Na véspera,
vários dos seus torossauros poedeiros davam mostras de mal-estar e doença. Alongou o olhar
pelo extenso paúl em que habitualmente pastavam e não pôde evitar o desalento. Só meia
dúzia ainda era visível. Em ansiedade, apressou o passo para a chocadeira central.
O sol iniciava o percurso descendente sobre a área predominantemente agrícola que
será conhecida, sessenta e cinco milhões de anos depois, por Lourinhã e se estende bem para
dentro do espaço que será mar no futuro. Em todos os ninhos urbanos terminaram já as
diligências alimentares do período zenital, exceto no ninho de Albbano. Não é comum ele
atrasar-se, quanto mais não aparecer em tempo de tão vital necessidade. Almmina mantinha
quentes as fatias de ovos de anquilossauro com caules tenros de rhynia, enquanto, inquieta,
espreitava o caminho, na esperança da chegada iminente do companheiro. A certo momento,
achou que tamanho atraso não podia significar nada de bom e resolveu pedir ajuda ao filho de
ambos, através do comunicador. Alccino não se surpreendeu com a chamada da mãe, porque
era frequente ela ligar-lhe só para contar pequenas peripécias domésticas, mas quando ouviu a
voz angustiada da mãe a dizer que o pai ainda não chegara para se alimentar, entregou de
imediato as tarefas de extração salina que executava numa bacia marinha interior e correu a
procurar o pai. Já não era a primeira vez que ele se perdia ou dava sinais de desorientação.
— O teu pai saiu do ninho mal raiava o sol e disse que ia ao Vale Fetal, como todos os
dias — informou ela. — Estamos na época em que eclodem muitos ovos e é preciso não haver
descuidos com as dificuldades das crias.
— Está bem, mãe, não te preocupes que eu vou procurá-lo. Assim que o encontrar,
comunico contigo — sossegou-a ele.
Alccino transpôs rapidamente a distância até à exploração pecuária do pai. Com o olhar
percorreu as suaves ondulações cobertas de polipódios, onde pastavam pachorrentamente
uma dúzia de torossauros, e a tentar discernir que animais chafurdavam na lonjura dos paúis
das zonas baixas. Não viu a silhueta altiva do pai, um parassaurolofo corpulento, mas um pouco
dobrado pela idade. Entrou na chocadeira central, e os funcionários disseram que o tinham
visto cedo, mas que ficara abatido quando soubera de mais três eclosões goradas.

Alccino pediu a dois para, em conjunto, fazerem uma busca na exploração.
— Eu vou pela encosta do lado esquerdo, e vocês procurem no vale, junto à zona
húmida! A propriedade é grande e ele pode estar caído em qualquer lado.
Embora achasse que era mais provável encontrá-lo nas zonas baixas, pensou que, em
cotas mais elevadas podia avistar maiores distâncias e descobri-lo. Após um tempo de
caminhada atenta pela vertente da ladeira, alcançou o alto da colina. Cheiros adocicados
embebiam-no. Por momentos, abstraiu-se do que o trouxera ali. Olhou em toda a volta. Para
norte, a vista admirável e querida do seu Vale Fetal, com o verde de vários matizes a colorir a
distância até à vertente oposta e mais além. Para sul, a dois vales de distância, as manchas
redondas e ocres dos ninhos urbanos da povoação. Mais perto, os vales dos vizinhos e amigos
Olvvonos e as suas explorações pecuárias de alamossauros, os enormes herbívoros ternos e
pachorrentos. Seria possível que o pai tivesse vindo visitar os amigos? Antes de decidir procurálo junto dos vizinhos, pensou entender o que acontecera. O pai tinha ficado desanimado com as
notícias da manhã na chocadeira e, com a idade, isso desorientara-o. Veio-lhe à memória outro
episódio de há muitos anos, quando uma epidemia lhe matara dezenas de animais. Nessa
altura, foram encontrá-lo amodorrado numa enorme rocha lisa virada ao sol do oeste, donde se
avistava o mar e aonde só se chegava por uma vereda. Avisou a mãe e pôs-se a caminho.
Realmente foi encontrar o pai alapado na Pedra do Poente em grande prostração. A
crista, habitualmente alaranjada, era agora cinzento-esverdeada. Não parecia ferido, só
abatido. Aproximou-se suave, mas não furtivamente. Queria ajudá-lo, não invadir a sua
privacidade.
— Então, pai! Está aqui! Estávamos a ficar preocupados...
Não obteve reação. Albbano mantinha um olhar de enorme tristeza perdido na lonjura.
Nada parecia poder animá-lo.
— Não fique assim, pai! — disse Alccino cheio de ternura. — São só mais três ovos
gorados. Já aconteceu muitas vezes.
O rosto do ancião baixou, em dor interior, sem responder.
— Tem de aceitar, pai! Os tempos de fartura e fertilidade já lá vão. Este é o mundo que
temos agora.
Alccino comunicou com a mãe a sossegá-la e continuou a tentar animar o pai, com
argumentos racionais de relativização dos prejuízos. Finalmente, Albbano começou a falar em
voz baixa, pausadamente.
— Não são só mais três ovos gorados, filho! Nós estamos a extinguir-nos. O ambiente
está envenenado com os compostos de irídio que servem para tudo. As crias não conseguem

romper a casca. Está cada vez mais dura e inquebrável. E não é só com os animais. Como já te
contei algumas vezes, para tu nasceres, houve que quebrar a casca artificialmente. Nós, os
parassaurolofos, praticamente já só nascemos de crustatomia. Se não fossem os cuidados
obstétricos, desaparecíamos. O panorama geral é preocupante. As crias não conseguem romper
a casca, os ovos não são fertilizados, as populações de todas as espécies estão a diminuir a um
ritmo assustador. Todos os anos desaparecem muitas espécies para sempre.
Calou-se, por momentos, como que a lembrar-se de outros exemplos. Alccino respeitou
o silêncio do idoso.
— A destruição da vida no planeta, tal como a conhecemos, está a tomar proporções
gigantescas. Dantes, além, avistava-se o tremeluzir da superfície do mar. Agora, o que se vê são
reflexos de objetos a flutuar. Mantas de tralha a cobrir enormes áreas de oceano. Há quanto
tempo lá não vais? É triste, deprimente, apetece não voltar lá mais. Como nos deixámos chegar
a esta situação? Estamos mesmo em perigo, acredita!
Fez uma pausa, a ganhar alento.
— Eu vou-me informando, sabes! Recebo revistas científicas. Já houve outras épocas da
Terra com indícios semelhantes e que resultaram em enormes extinções. A maior foi há 185
milhões de anos, que fez desaparecer 96% das espécies marinhas e 70% das terrestres. Devido
à gravíssima situação que atravessamos, os cientistas já lhe chamam a Extinção em massa do
Cretácico, a época atual, ou a Quinta Extinção. Estão registadas cerca de 800 espécies extintas,
nos últimos quinhentos anos, mas, como a maioria não está documentada, os cientistas
calculam que é mais provável que se tenham extinguido entre vinte mil e dois milhões de
espécies, só no último século. E, tendo em conta os limites do conhecimento atual, a taxa anual
de extinção pode chegar às 140.000 espécies. Estamos no limiar da catástrofe.
Alccino agachou-se, abatido pela força terrível dos números que o pai lhe atirava. A
preocupação com o desaparecimento do progenitor desvanecera-se, mas agora um peso
inesperado acabrunhava-o. Como era possível que nunca tivesse ouvido falar disto?
— Percebes, agora, porque estou desanimado, sem esperança? — interpelou-o
Albbano. Há muito que me vou dando conta do que os cientistas vão divulgando.
— Mas, pai — reagiu Alccino —, não são só teorias malucas de tipos que veem um
mosquito e lhes parece um alamossauro? É que eu nunca ouvi falar disso…
— Não, Alcci, quem afirma que a extinção atual é um facto são cientistas conceituados
entre os seus pares. Dão conferências, mostram dados, mas parece que ninguém os ouve. E
dizem mais; dizem que somos nós — a espécie dominante —, que estamos a provocar a
extinção em curso. Com a caça intensiva, a introdução de organismos perigosos para os nativos,
a destruição dos habitats naturais, a desflorestação, a sobreexploração agrícola, a poluição e o
envenenamento com agrotóxicos e hormonas pecuárias. Isto, sem falar do problema que está
na raiz de todos estes: o crescimento populacional contínuo da nossa espécie e o consequente
sobreconsumo.
— Mas sempre houve espécies a desaparecer de maneira, digamos, natural, pela natural
seleção natural…
— Sim, só que com a nossa ação, a que alguns também chamam natural, mas de
extensão e intensidade avassaladoras, a perda de biodiversidade é dez a cem vezes mais rápida.
E seremos nós que acabaremos por pagar um preço demasiado alto, pela rápida diminuição do
único conjunto de vida que conhecemos no Universo. Ficaremos sozinhos.Sem a concorrência
que vencemos, extinguimo-nos também.
— Isso não pode ser assim tão dramático, pai. Nós somos a espécie mais bem sucedida
de toda a história do planeta...
— Este sucesso começa a parecer demasiado catastrófico. Quando há tipos que, como
eu, prestam atenção aos problemas ambientais, também não sabem como resolvê-los ou
ajudar a minorá-los. A minha “solução” hoje foi esta: deprimir-me. A da nossa espécie devia ser
positiva, assertiva, concertada, global, muito profunda. Eu não quero mostrar-te para onde
deves olhar, só gostava que tomasses consciência de que há muita coisa a distrair-nos e que
nos deixamos alegremente ocupar com problemas menores. A maior razão da minha
desesperança é que não acredito que algum dia consigamos inverter o caminho de razia que
trilhamos. Quando deteriorarmos o planeta a um nível irreversível, seremos nós a extinguirnos. Ironicamente, essa pode ser a solução para o planeta: livrar-se de nós.
Albbano calou-se. Pai e filho mantiveram-se pensativos ainda por algum tempo. Talvez por ter
desabafado, Albbano começou a sentir-se com forças para regressar. Em passos brandos,
porque já anoitecia, dirigiram-se para casa, em silêncio. Por cima do horizonte, ia nascendo o
cometa, que, havia meses, iluminava as noites em todo o mundo. A enorme cauda ocupava já
todo o lado nascente do céu. Caminhando para aquele clarão, pareceu-lhes que a esperança
num mundo renovado aumentava no seu ânimo.

 

Até breve.

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