Neste blog são apresentados conteúdos literários. Para qualquer assunto podem contactar o autor via ruiprcar@gmail.com. Aceitam-se contributos de outros autores, de 4 a 24 de cada mês, relativos ao tema Natureza ou Universo :-)
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Hoje apresenta-se uma breve definição de desenvolvimento sustentável. Seguida de dois poemas do Concurso Literário Natureza 2025. Finalmente, apresenta-se o filme "Lindo" o qual nos permite saber mais sobre o impacto da poluição marinha nas tarturas e peixes que vivem nas águas de São Tomé e Príncipe.
Logo que possível inicia-se a divulgação dos outros trabalhos seleccionados para a Antologia. Os trabalhos que já foram publicados neste blog, recebidos no contexto do Concurso Literário Natureza, farão todos parte deste livro digital.
Conceito de desenvolvimento sustentável
Desenvolvimento que permite a satisfação das necessidades do presente sem comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras.
A sustentabilidade ambiental surge em igualdade com a sustentabilidade financeira e outras dimensões de sustentabilidade.
Fonte:
Assembleia Geral das Nações Unidas. (1987). Report of the world commission on environment and development: Our common future (Relatório da comissão mundial sobre ambiente e desenvolvimento: o nosso futuro comum). Oslo, Noruega, Desenvolvimento e Cooperação Internacional: Ambiente.
Alguns poemas do Concurso Literário Natureza 2025:
Nossa Lei, por Simone S. (2º Lugar)
As leis se dobram como véus,
Sobre os olhos de quem cala...
Enquanto o grito do justo ecoa
Num tribunal que não fala.
Prometem justiça às claras...
Mas operam na penumbra do texto.
Onde há norma, há exceção...
Onde há réu pobre, há pretexto.
O tempo da lei é cego e mudo...
Caminha lento, ou se arrasta...
Mas corre, se for conveniente,
Na pele do fraco, a espada gasta.
Brechas? Não são descuidos.
São passagens cuidadosamente esculpidas,
Por mãos que escrevem a norma...
E apagam as feridas.
O interrogatório, tardio ou não,
É só o espelho do que se quer mostrar.
Mas nos bastidores do processo,
A verdade aprende a se calar.
E eu, que estudei cada artigo,
Vejo o silêncio como sentença...
Pois não é a lei que falta,
É a justiça ─ e sua presença.
A Montanha do Ser, por Shirley L. (3º Lugar)
Há dias em que o peito quer voar, Outros o chão parece sumir Somos feitos de ânsia de alcançar, E de medos que vêm insistir.
Num instante, a coragem se acende, Logo após, a incerteza nos chama. Entre o caos e o amor que surpreende, Respira a nossa natureza humana.
Queremos amar sem nos ferir, Mas do amor vem também a dor. Queremos sorrir sem desistir, Mesmo quando o mundo perde a cor.
Ser humano é subir e escorregar, É cair sem perder a direção. É no abismo também se encontrar, E no erro aprender compaixão.
É lutar contra o próprio espelho, Encarando a verdade no olhar. Ser inteiro, mesmo sendo imperfeito, E, em silêncio, também se perdoar.
Cada passo é um novo renascer, Mesmo em noites de sombra e neblina. Há beleza em continuar a viver, Pois ser humano é luz, é rotina.
Fica aqui o convite a conhecer o filme "Lindo". Com as suas imagens coloridas de verde e das cores de aves e frutas nativas, enquadra a nossa descoberta da vida das tartarugas marinhas, sempre confrontada com a pesca e a poluição marinha. Por exemplo, os plásticos que são levados pelas correntes marítimas até aos locais mais improváveis.
Uma cena muito cativante é a da "caminhada" de uma tartaruga recém-nascida até às águas do mar. Um percurso feito muito vagarosamente e deixando ficar um rasto na areia: o das barbatanas a impulsionar o corpo deste pequeno ser vivo. A filmagem é feita durante a noite e a escuridão do horizonte e o som das águas tornam ainda mais envolvente esta cena.
Em tempos de tempestades no sul da China, por exemplo, em Macau e Hong Kong, mas também em Portugal Continental e Açores, aqui ficam alguns poemas e contos.
O lugar onde cresci Era um lugar sem mar E sem verde para olhar. Havia a luz dos vaga-lumes, Pardais malabaristas, E três rios (um ao lado do outro) Com nomes de peixe, na língua tupi. As moças ribeirinhas Banhavam-se nos rios da minha infância. Os rios seguiam o curso d’água sem pressa, Ajustando-se com simplicidade A pobreza do lugar. O sol iluminava as ruas sem calçadas, E a lua no espelho das águas dos rios Era a beleza que faltava mirar. Eu pisei o barro da terra em cores. Eu molhei meus pés nas águas enchentes. Mas não conheci as águas dos rios Que me encharcam a alma De uma saudade água nascente.
Amorosidade, por Vera A. (Brasil)
A Nina é uma cachorrinha que adotei há muitos anos. O antigo dono a havia abandonado, trancada num quintal de muros altos. Só não morreu graças ao senhorio da casa, que estranhou não receber os aluguéis, foi até lá e encontrou tudo fechado. Colocou a cadelinha na calçada e foi embora. Soube do fato por uma vizinha e resolvi adotá-la.
No início, Nina era muito assustada, mas aos poucos, sentindo-se acolhida, passou a confiar em nós e virou nossa mascote. Meu marido a enche de mimos e faz coceirinhas nas orelhas, que ela adora.
Com o tempo, foi se acostumando aos nossos rituais familiares — quase sempre acrescentando alguma particularidade sua. Aprendeu o que significa “almoçar” e “nanar”, sabe quem é o pai e quem é a mãe, e até percebe quando estou triste. Nessas horas, encosta-se em mim e me enche de lambeijocas, como se dissesse: “coragem, vai passar.”
Atendendo aos apelos do meu cardiologista para que eu fizesse exercícios, vesti um velho e confortável legging, uma camiseta folgada e me sentei para calçar as meias e os tênis. Imediatamente, Nina pulou ao meu lado — tenho certeza de que, se pudesse, buscaria sua coleira! Desde o dia em que a levei comigo para caminhar, basta que eu calce os tênis para que ela se anime toda, antevendo a hora do passeio.
É curioso como os cães entendem mais de natureza humana do que muitos humanos. Nina não me cobra palavras, não exige explicações; basta estar comigo. Durante a caminhada, me olha como quem dissesse: “viver é simples: só precisamos estar juntos e caminhar lado a lado.”
Foi então que me peguei pensando na expressão “natureza humana”. Somos feitos de sentimentos — alegria, esperança, tristeza, carinho — e também das nossas ações: o gesto de oferecer atenção, o esforço de prosseguir, o simples ato de nadar, correr, cantar… ou até regar uma planta. Lembrei-me de minha mãe, que mesmo em tempos difíceis nunca deixava de cuidar das flores do quintal. Talvez fosse o modo dela de acreditar que a vida, apesar das dores, sempre encontra um jeito de florescer.
A amizade, também, é um ramo dessa árvore. Assim como o amor. Lembrei do meu primo Cleto, apenas um mês mais novo do que eu, meu inseparável companheiro de travessuras. Sou filha única; sem a presença dele, minha infância não teria o mesmo encanto. Com quem eu iria pescar girinos? Quem inventaria máquinas de passar filmes, feitas de papelão e palitos? Quem me ensinaria a fazer um canhão de mamonas? E os amigos da escola, então — quanta cumplicidade!
Mais tarde, recordei os bailinhos da juventude, as risadas divididas, os namoricos que vinham e iam como estações. Cada amizade, cada amor, era como uma planta regada: algumas florescem e ficam, outras secam e deixam apenas a lembrança da sombra que um dia nos acolheu.
Nina latiu, tirando-me do devaneio. Percebi que ela havia parado diante de uma árvore enorme, de tronco grosso, que parecia guardar segredos de gerações. Acariciei seu pelo e, naquele instante, compreendi: a natureza — humana e não humana — se encontra sempre no mesmo lugar: no gesto de estar junto, no cuidado silencioso, no amor sem alarde.
Talvez seja essa a missão da vida: aprender com a natureza a seguir em frente, mesmo quando a folha cai, mesmo quando a chuva atrasa a florada. Seguir em frente, mas juntos — nós, os humanos com nossas emoções complicadas, e eles, os cães, simples e inteiros, lembrando-nos de que a felicidade pode estar em algo tão singelo quanto dividir uma caminhada.
Filhos da Terra, por Cláudio M. (Portugal)
A natureza não nos pertence: somos apenas sopro no seu coração antigo.
O lince ensina-nos silêncio e resistência, a pétala, ternura e renascimento.
Entre rios rebeldes e raízes que abraçam, vemos espelhos do nosso próprio ser.
E se um dia aceitarmos ser filhos, e não donos, a terra voltará a chamar-nos pelo nome verdadeiro.
Raízes Espelhadas na Natureza, por Rita C. (Brasil)
Era uma manhã úmida e ao som que vinha da natureza, Clara caminhava pelo bosque como quem buscava respostas que ainda não havia encontrado nos livros. A cada passo, observava as árvores, ali firmes e altivas, que pareciam imponentes diante dela. Aquelas árvores tinham uma energia de anciãs, eram como velhas sábias ou guardiãs de segredos que somente através de uma profunda conexão seria possível decifrar. Ela sentiu que cada raiz presa à terra mostrava para si, o reflexo de suas raízes invisíveis entrelaçadas em emoções, sentimentos e sensações.
Enquanto adentrava pelo bosque, a cada olhar uma nova descoberta surgia... Observando o curso do riacho, ela percebeu o que antes não havia dado atenção - a água seguia adiante sem resistir às pedras, ela apenas as contornava. Clara pensou em quantas vezes havia se ferido, por tentar enfrentar o intransponível, em vez de fluir como a correnteza. Através do som do vento que agitava as copas das árvores, reconheceu seus próprios sentimentos... Que em alguns momentos eram como suaves brisas de afeto, já em outros, eram como tempestades que vinham para lhe arrancar à calma tirando-a do chão.
Foi então que Clara entendeu que a natureza não apenas existia, mas também nos ensinava a existir! O ciclo das estações refletia o movimento de sua alma. Eram primaveras de entusiasmo, os verões de intensidade, outonos de desapego e invernos de recolhimento. Tudo começou a fazer mais sentido, assim como na própria natureza faz... A natureza estava ali o tempo todo disponível, lhe mostrando que ela também precisaria se renovar a cada novo ciclo, para que pudesse desta forma florescer novamente.
Com este despertar de consciência, Clara ajoelhou-se sobre o solo úmido e tocou a terra em reverência a sua importância e magnitude. Sentiu que se conectar com a mãe natureza, era também um ato de cuidar de si própria. Sua percepção se estendeu a um olhar diferente para o real equilíbrio humano... Sua nova consciência lhe mostrava que o equilíbrio não estava em querer dominar ou controlar o mundo, mas em se reconhecer como parte dele. Assim, erguendo-se do chão, elevando seu olhar para o céu, ela viu na delicadeza das nuvens a promessa de um novo tempo... Um tempo que anuncia um convite magistral para que não só ela, mas toda a humanidade possa enfim aprender a viver em harmonia com a natureza e seus mistérios, que representam o coração da Terra.
O gato do stand, de Gil S. (Portugal)
À porta de um stand de automóveis vive um gato. Um gato rabino, que gosta de lamber os pés de todos aqueles que não lhe fazem carinho. Ele sabe onde conseguir comida. Ou no café do outro lado da rua ou na casa de uma velha com verrugas que vive no andar de cima de um pequeno prédio cinzento separado por uma casa do stand de automóveis. Um dia, o gato, na sua normal ida ao café em busca de comida, atravessa a rua. Porém, e como não é humano e não sabe olhar para um lado e para o outro quando vai atravessar a estrada, não se apercebe que vem um camião cheio de gasolina para ir abastecer um posto que ali ficava perto. Esse camião, que era alto em relação à estrada, o que não permitiu o condutor ver o gato, vinha rápido de mais para a zona em que se encontrava naquele momento. De um instante para o outro, ouve-se um barulho estranho e agonizante. O camião pisou e esmagou o gato, deixando-o espalmado no chão num relevo de três milímetros. O camião não parou, já que o condutor nem se apercebeu do sucedido. Todos os anos, naquele dia, um estranho cheiro a gasolina sente se fortemente naquela rua e o gato fica com um tom mais acinzentado. O gato espalmando ainda lá esta, com uma cara de aflição não sentida. Nunca ninguém o conseguiu dali tirar. Quase que se pode dizer que o gato é também estrada.