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Contos das Estrelas

Neste blog são apresentados conteúdos literários. Para qualquer assunto podem contactar o autor via ruiprcar@gmail.com. Aceitam-se contributos de outros autores, de 4 a 24 de cada mês, relativos ao tema Natureza ou Universo. :)

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Texto de quase crítica literária ou de cinema sobre o filme “Pedro e Inês” (2018)

por talesforlove, em 31.01.19

 

O filme “Pedro e Inês” (2018) do realizador António Ferreira e Tathiani Sacilotto é baseado no livro “A trança de Inês” de Rosa Lobato Faria (2001). É possível dizer que provavelmente este é um exemplo de uma nova forma de olhar para a história do nosso país, vendo-a de uma forma e, de certa forma, provocando-a, porque, além de se olhar para a evolução material e cultural temos ainda a história de Dom Pedro e Inês de Castro, que é um pretexto para nos questionarmos como seria esta narrativa nos nossos dias ou mesmo no futuro. Sabemos que Dom Pedro desafiou os limites sociais e familiares do seu tempo e foi-lhe atribuído o cognome de O Justiceiro e surge a pergunta sobre qual seria o seu comportamento e o das outras personagens principais, Dona Constança e Dona Inês, nos nossos dias, por exemplo. E enquanto leitores do livro e espectadores do filme, podemos ainda perguntar quais as razões que levaram a autora a acreditar que esta narrativa seria possível e realista.

Gostei de ver este filme, na sua configuração surpreendente, leva-nos a um passado que me parece bem retratado, leva-nos a um presente imaginado, aparentemente muito lisboeta, e a um futuro intrigante e ecológico, simultaneamente como um regresso aos primórdios, um fechar de círculo. Brincando com o que vemos, podemos dizer que estamos perante uma máquina do tempo consciente em que a história contada e o cinema não coincidem por completo, ao contrário do que aconteceu com as primeiras projeções de Auguste e Louis Lumiére, por exemplo, L’árrivée d’un train engare de La Crotat (Lopes, J.; Maio 2018; p. 19). Ao ver o filme podemos ficar confusos, e parece ser esse o objetivo do realizador, pois não sabemos bem se o Pedro de hoje está louco ou apenas mais recolhido a um estado superior de consciência do que é a sua vida. Senti que o filme é suficientemente complexo para o olhar sob três perspetivas: a do retrato do passado (histórico); a do presente “imaginário”; e a relativa a um “futurível”. Trata-se de algo a fazer lembrar os trabalhos de Paul Gaugin, nomeadamente as suas películas sobre o Tahiti e a designação a eles atribuída “De onde vimos/quem somos/para onde vamos” (Lopes, J.; Maio 2018; p. 23).

 

PASSADO

Parece ser essencial uma breve introdução histórica com contexto cronológico, para que nos seja possível compreender que a abordagem apresentada nesta película é muito balizada pela história real vivida pelos protagonistas ou personagens principais. Apresento de seguida uma breve sequência cronológica de eventos conhecidos ou que se julgam ser reais. A esta segue-se uma muito breve explicação social.

 

Coimbra a 8 de abril de 1320: nasce Dom Pedro I, filho de Dom Afonso IV e Beatriz de Castela;

1334: casa com Infanta Dona Constança, nascida em data incerta e falecida em 1345 (filha de D. João Manuel, infante de Castela);

Cerca de 1325: nasce Dona Inês de Castro, que viria a falecer em Coimbra, na Quinta das Lágrimas (Quinta das Lágrimas; 2019), em 1354, sendo mais tarde coroada Rainha por Dom Pedro I e sepultada, ao seu lado, em Alcobaça em 1361 (filha de D. Pedro Fernandes de Castro a de D. Aldonça Soares de Valadares, de Castela);

Dom Pedro I é neto de Dom Dinis, o Rei Poeta, e entre os seus filhos encontramos Dom João, Mestre de Avis, fundador da segunda dinastia, cuja mãe é Teresa Lourenço, nascida a 14 de Agosto de 1356 (Portal da História; 2019).

 

Os fios condutores desta sequência de eventos, são: i) o sentimento de infortúnio por parte de Dona Constança, em contraste com o amor entre Dom Pedro e Dona Inês; e o ii) o desconforto feroz de Dom Afonso IV, pai de Dom Pedro, que considera o comportamento do filho inaceitável por ser inoportuno, também porque contrário à sua vontade, e sobretudo por ser algo com possíveis consequências para a Coroa, podendo provocar um conflito com Castela.

 

PRESENTE

 

Este presente sugere-nos um Pedro que se casa com Constança porque as circunstâncias da vida o levam a isso, ou seja, com a naturalidade de quem namora com alguém e a leveza do habitual o conduz a esse “desfecho”, ou seja, não sendo obrigado, como no passado, também não se questiona nem vê alternativa. Inês surge no local de trabalho e Pedro sucumbe ao impulso amoroso imediatamente. Tal como no passado a história não nos compromete com um julgamento com culpados e inocentes, sendo todavia mais discreta a fronteira pois aqui não existe uma obrigação de matrimónio.

Também aqui Constança tem uma via de ação diferente, sentindo-se injustiçada, ela não morre e não se mantém em silêncio, pelo contrário, vinga-se, de uma forma que não quero aqui descrever para não contar todo o enredo. A sua ação pode-nos levar a questionar a sociedade em que vivemos ou a forma como a escritora olhava para a sociedade a que pertence. Assim, a violência extrema continua a existir mas não já praticada por Pedro, mantendo-se todavia a tragédia desta história de amor. Talvez tenha sido este sentir que a escritora queria que permanecesse, independentemente da história ser considerada verosímil nos nossos dias ou entendível. Algo é certo: a violência continua nas vidas dos protagonistas pese embora a suposta evolução de centenas de anos da sua sociedade. Não poderia ser diferente?

O filme retrata esta sequência de eventos de uma forma sensível, primeiro mostrando um certo estilo de vida lisboeta e depois tentado revelar uma Constança que deveria sair de si, enlouquecer, ao ponto de agir de forma tão descontrolada. Parece-me que não é suficiente este retrato no filme, e provavelmente também no livro, para aceitar este desfecho, possível mas incómodo.

 

FUTURO

 

Intercalado com o passado e o presente vai-nos surgindo igualmente o futuro, como se os três elementos do tempo fossem comparados a par e passo, revelando possibilidades distintas das mesmas vidas, sem um propósito que não se consegue perceber. Para contextos diferentes parece existir a preocupação de manter uma carga dramática igual, justificando a descrição de “amor intemporal” este vivido entre Pedro e Inês e, evidentemente, Constança. Não importa nada se as ações das personagens são legítimas aos nossos olhos de hoje e parece existir uma grande preocupação do realizador para acentuar esta constância na expressão de cada cena em momentos chave que parecem comuns a tempos distintos.

O nome Constança, tal como numa peça de teatro clássica, parece remeter para uma atitude constante em termos emocionais, resistente, mas essa postura não se verifica nem no presente nem no futuro, embora com consequências díspares. A Constança do futuro surge enquadrada numa comunidade ecológica. Esta comunidade comporta-se como uma máquina com engrenagem em que quando surge um elemento ou possibilidade de desarmonia, leva ao distúrbio e consequentemente ao resultado trágico. Como no passado, nota-se uma certa rigidez de contexto social, e a dureza das expressões deste pai Afonso, denotam isso mesmo: uma força externa aos protagonistas amorosos. O filme capta esta força sendo que no presente me parece menos real, menos presente.

 

 

 

 

 

Para finalizar: um breve olhar global...

À medida que vamos vendo o filme ficamos estupefactos por sermos surpreendidos pela história, pois, afinal, deveríamos conhecer tudo, dado que o filme tem uma forte componente histórica. Esta surpresa é muito gradual, tal como a possibilidade de uma tragédia porque vamos muito suavemente sendo “abraçados” pelos acontecimentos, sem existir nada que nos abale emocionalmente, num primeiro olhar. A música contemporânea e com um toque de mistério só sublinha esta sensação inesperada.

Em dado momento, tudo parece modificar-se e mesmo a leveza dos cenários parece ganhar um novo peso. Sente-se um pressentimento mau, acompanhado de um travo metálico na boca, como que anunciar uma tragédia eminente e quando de facto algo acontece, algumas pessoas podem mesmo ser forçadas a voltar a face no decurso de algumas cenas, tal é a sua força.

Na minha opinião, o trabalho dos realizadores é sublime. 

Quem vê este filme vê mais que um filme de entretenimento, vê quase um documentário histórico, vê algumas cenas rodadas na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, vê uma tragédia romântica que leva a pensar sobre a sociedade e sobre nós próprios, na forma como nos deixamos, ou não, ser influenciados pelo que nos rodeia.

Um belo filme intimista sobre Portugal.

 

Agradecimentos:

O texto foi lido pelo profissional de imagem David. C. que amavelmente cedeu a sua opinião.

 

Bibliografia:

 

Lopes, J. (2018), “Cinema e história”, Fundação Francisco Manuel dos Santos, pp. 88

Website: Quinta das Lágrimas (2019); http://www.centerofportugal.com/pt/quinta-das-lagrimas/

Website: Portal da História (2019); http://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/pedro1.html

 

Trailer oficial:

 

 

Para terminar, um belo vídeo Italiano (Estúdios APSHOR)para uma impressionante canção Portuguesa, por Dulce Pontes.

Quantas vezes somos mais valorizados no estrangeiro do que no nosso país.

 

Dulce Pontes - Canção do Mar

É possível gostar aqui: https://www.youtube.com/watch?v=YzCaGytvgzQ

Amanhã contamos divulgar os resultados intercalares do Concurso Literário Internacional "Natureza 2018-2019". É a listagem dos trabalhos escolhidos para a Antologia, entre os quais serão escolhidos os vencedores. Todavia, mesmo entre os autores não escolhidos pode surgir um contacto, no futuro próximo, com o objetivo de propor a sua publicação no blog.

 

Até breve.

 

 

 

Para breve um texto sobre o filme "Pedro e Inês"

por talesforlove, em 07.11.18

 

Fevereiro...

por talesforlove, em 01.02.18

Fevereiro começa hoje... talvez o melhor seja vermos algumas fotografias “de alegria” em Dezembro, em Lisboa.

 

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Com a naturalidade com que uma águia-de-bonelli caça durante o dia ou uma coruja-das-torres durante a noite, assim chega ao fim o Concurso Literário Natureza 2017-2018! Ainda em Fevereiro contamos divulgar os resultados das categorias poesia e conto.

Antes de lermos um poema por António do C., ainda antes de lermos um conto vencedor de 2017, e ainda antes de ler a Revisão crítica de “Adágios” por José Vieira, ou ouvir dois programas “O Amor é”, por Inês Meneses e Professor Júlio Machado Vaz, e finalmente ainda antes de ler “Esperança em pedaços (2)” por Rui M., do livro “Pedaços de esperança” a editar em 2018, convém-nos refletir sobre a ligação “perigosa” entre literatura, natureza e arte.

Por exemplo, o quadro “A Primavera”, por Sandro Botticelli (1444 ou 1445 - 1510), nascido em Florença, cidade berço do Renascimento Italiano. Sem querer olhar com um detalhe exaustivo para esta obra, será de enfatizar a existência da figura da Deusa Flora, Deusa floral, com o seu vestido florido e recebe como dote um jardim fecundo, com floração abundante. Vénus, a Deusa do amor, surge como elemento apaziguador da natureza, por vezes, rigorosa, do amor. E cometendo a “traição à obra” de por simplicidade de análise esquecer todos os seus outros elementos, fica ainda a observação da existência de uma profusão de flores que para alguns botânicos é um notável efeito pictórico... com laranjeiras, acianos, miosótis, cravos, etc. Finalizando, esta pintura possui também uma dimensão de mudança, que surge associada à própria identidade da natureza, e é envolta em mistério. Afinal, quais as mudanças a que se aludem na pintura?! A obra tem uma dimensão mística, naturalística e literária, dado que o próprio pintor assumiu influências poéticas nas suas obras, sem exceção. Algo é certo, as muitas poesias recebidas ao longo do nosso Concurso Literário ligam natureza a humanidade mas também ao desejo mutante da natureza. Fica, por agora, o convite a continuação de boas leituras e contributos para uma natureza mais conservada e respeitada.

 

Por António do C. em 14/01/2018

 

Deram-me uma fotografia 

Como no título do livro de Paula Hawkins, 
estava escrito na água, 
que esta fotografia seria minha: 
luz em redomas de vidro, 
cercadas pela escuridão, aprisionadas por ela, 
irmãs de um mesmo meio de dispersão 
que nos solta espetros de contraluz. 

Tão simples, tão redondas, 
como as flores de um jardim: 
como o Jardim da Estrela, 
tudo cheio de uma cor, 
e tudo tão sem festa 
sem ilusão ou necessidade de perdão 

Serenidade é esta fotografia. 
Como se eu fosse um miúdo, de novo, 
e me sentisse em paz com o mundo. 
A bênção da infância é crer que basta crer, 
que ele nos deixa fazer tudo e sermos 
essa única ilusão. Verdadeiro refúgio. 

 

bolasdeluz2018.jpg

 

 

 

Um dos contos vencedores em 2017

 

4º Lugar

 

CHUVA NO DESERTO, por Alberto Arecchi, Itália

 

Está chovendo. Chove no deserto do Saara.

Com certeza, não se trata da nossa "chuva de março", nem do tempo triste do outono.

Na noite passada, vimos umas grandes nuvens negras engrossando para oeste, um pouco acima do maciço de Adrar, a antiga montanha sagrada que se levanta no meio do deserto. Depois do pôr do sol, a escuridão do céu estrelado foi subitamente atingida por raios, a partir daquela mancha negra, sobre a montanha distante. Nosso guia perscrutou o horizonte e nos mandou deslocar o campo para uma posição mais elevada. Geralmente arranjamos o campo em alguma depressão, abrigada dos ventos. Ontem à noite, porém, fomos para um morro bastante alto, fora do vale do rio, a salvo de súbitas inundações.

Parece paradoxal falar de cheias aqui, a frente do leito de um rio seco como uma esponja espremida, depois de quarenta dias de seca absoluta, sob o céu claro, sem que a gente veja uma única gota de água. No entanto, cerca das cinco horas da manhã, acordou-nos um ruído distante, que logo se tornava um rugido maçador. Um fenômeno bastante preocupante, que parecia aproximar-se. Crescidos com os filmes de cowboys, tínhamos a impressão de uma manada de bisões galopando em volta da nossa posição.

Vinte minutos depois, precedida por uma frente de ar muito frio, no álveo do rio chega uma montanha de água preta, com uma altura de cinco metros e a velocidade de um trem. O leito do riacho enche-se rapidamente. Se tivéssemos acampado lá, estaríamos reduzidos a escombros e arrastados até alguns quilômetros mais adiante, juntamente com as pedras que rolam no fundo, levadas pela cheia. Nossa sorte foi nos encontrar a uma pequena distância dos montes e da nuvem negra, e podermos assim nos tornar conscientes da chuva iminente. Cinquenta quilômetros mais adiante, a cheia iria chegar e atingir as caravanas sem nenhum aviso de alarme.

Ficamos atordoados, enquanto nosso guia se apressa para pegar as barracas, e cravar tudo o que possa ser arrastado pelo vento, e grita para nos colocar em lugares protegidos. Na verdade, após a onda de água suja da cheia - quase imediatamente - está chegando uma violenta tempestade de vento, com poeira grossa e com as primeiras rabanadas de chuva. É como se alguém estivesse lançando, em ondas repetidas, uma enorme quantidade de areia, terra e pequenas pedras afiadas, tudo misturado com água. Estamos fechados nos caminhões, mas nenhuma vedação poderia guardar-nos dos salpicos de água e terra, que penetram no interior. Pelas janelas não podemos ver além de poucos metros, nem perceber se - por acaso - escorregarmos no fundo do rio, tirados pela força da água. Somente os choques do forte vento, que balançam os meios de transporte, confortam-nos a não ser debaixo da água e ainda termos as rodas apoiadas no chão, e tranquilizam-nos por não ser sido arrastados pela força da água.

Na escuridão total, jogados como um trem desgovernado, em uma tempestade de poeira de carvão molhado. O ar é irrespirável, saturado de umidade. Um pesadelo de quarenta minutos.

Rápida e súbita, como quando ela chegou, a chuva vai acabar. A luz aparece timidamente entre os vapores emanados a partir do solo molhado, cheio de poças.

A tempo para ver o nascimento de um grande arco-íris para o leste, em torno dos primeiros raios do sol que perfuram as nuvens.

Abaixo de nós, no leito do rio, a água parou a formar uma barreira, que nos impede qualquer passagem.

Ao nosso redor, o deserto enche-se rapidamente, animando-se como o passeio do sábado. Enxames de insetos voam no ar e concentram-se sobre as poças, moscas, mosquitos, efemerópteros com asas iridescentes. Besouros de cores vivas emergem do solo. Reconheço um inseto vermelhão, que aqui é chamado “o anjo da chuva”: claro que não podia faltar. Lagartos e sapos pequenos aparecem do nada, e com eles uma infinidade de pássaros. Afinal, há até alguns mamíferos que chegam para beber. Uma pequena gazela tenta pegar uma bebida, mantendo sua distância de nós. Um fenech (raposa do deserto) ousa em vez mais e se aproxima de nossas provisões, em busca de comida. Antes da tarde, os horizontes distantes aparecem como pastagens. Não é uma miragem, mas o resultado da revitalização de sementes que estavam na terra, esperando umas gotas de água - talvez por anos. É como se a terra tivesse aberto seu ventre, para desencadear uma segunda criação. Aqui no deserto a gente percebe e entende todo o esplendor e a energia total dos elementos primordiais: fogo, terra, ar, água. A água é o elemento final, em que tudo acaba e tudo renasce com um novo ciclo de vida.

Decidimos ficar por alguns dias neste pequeno oásis improvisado. O recomeço da nossa viagem, agora, entre as rochas e as areias molhadas, poderia ser muito perigoso, porque correríamos o risco de afundar com as rodas na lama. Mas - o que é mais importante - não queremos perder esta alegria primordial, a maravilha de sentir-nos no início da criação, para ver o nascimento e a primavera da vida, onde havia primeiro o Saara, o ‘grande nada’.

O sol desce no horizonte, nem sequer vê-se uma nuvem. Um escorpião captura a sua presa, uma pequena rã, já paralisada pelo veneno da sua cauda. Um grande lagarto de cabeça amarela assiste à cena e balança a cabeça, como um ser humano continuando a negar a evidência. O fenech decide ir-se embora: ele sabe que o lagarto se deu conta da sua presença, e sabe que é mais ágil do que ele. Hoje terá que encontrar outro jantar.

Nosso guia alarga o tapete para a oração do pôr do sol e se inclina em direção ao leste, onde o céu escurece rapidamente. Movimentos antigos, no seio de uma natureza em que acabaram de repetir-se os eternos rituais de nascimento, vida e morte. Sentimo-nos como folhas leves, transportadas neste cenário por uma nuvem passageira e um sopro de brisa.

Chegou a noite, outro dia passou. Brincamos como crianças, olhando com binóculos e lentes de telefoto para todas as espécies de plantas e animais que apareciam, para fixar a memória daquele fenômeno raro. O deserto agora vive e é como se todos os seres que nele habitam surgissem de um jogo de armário, e cada um vai, para ocupar seu lugar, num espetáculo teatral. Mas sabemos que amanhã será outro dia, acordaremos e nos encontraremos no deserto de sempre, murcho e seco.

 

Revisão crítica de “Adágios” por José Vieira      21 Julho 2017

 

“Adágios” (2017) é o terceiro livro publicado por José Vieira, pseudónimo da autora Teresa Vieira Lobo, nascida na década de 80 do século passado em Gaula . Esta obra surge após o amadurecimento literário proporcionado pelo primeiro livro “Estranhas Coincidências”, publicado em 2014, e pouco depois, em 2016, com o romance “Dedicação, Palavra e Honra”. Alguns contos publicados na revista literária “Submersa” e na plataforma “Quem conta um conto”, somam-se a esta atividade literária laboriosa.
“Adágio significa provérbio popular com mensagens de teor moral, ditado. Assim, considerando apenas o título “Adágios”, poderíamos supor que no interior deste livro iríamos encontrar uma coletânea de ditados, todavia, tal não é verdade pois, encontram-se 5 contos autónomos, todos eles, é certo, com mensagens morais explícitas com diversa gradação na forma como nos surgem.
Em prosa cativante, em ritmo marcado pela ação e emoção, surgem diante de nós as vidas, realistas, de cinco mulheres que procuram o melhor para si, e para os seus, em contextos frequentemente tormentosos mas também frequentemente felizes, muitas vezes em simultâneo, sem dúvida que a par e passo; em relato de luta entre o bem e o mal.
Na contracapa diz-se que “Adágios é um livro de vidas. De mulheres. De luta. Um dia foram elas... Amanhã seremos nós.” Convém olhar com algum cuidado esta sequência afirmativa. As vidas são, sem dúvida, o núcleo central deste trabalho, são elas que lhe dão corpo. São-no na perspetiva das mulheres, o que adiciona detalhes comoventes e familiares ou mesmo de “amor quase maternal”, como às páginas tantas se menciona, de tal forma que, quando em certo momento se fala de “essência”, já compreendemos, antecipadamente, o que se pretende referir ou pelo menos isso assumimos, dada a profundidade de alguns dos conflitos éticos com que se deparam as personagens.
Quero todavia acreditar que vários destes elementos dramáticos seriam parte destas histórias caso se de homens se tratasse... A luta ética é algo que pode dizer muito a todo o ser humano e é de seres humanos que versam estas páginas, sensíveis e cativantes. Todavia, não se concorda com a afirmação que remete para amanhã esta luta, pois por vezes podemos esquecer mas ela nos envolve a cada momento e em cada ação pois somos seres dotados de livre arbítrio.
Em resumo, a leitura de “Adágios” leva-nos longe, quem sabe a olhar “por dentro” a natureza humana. A certa altura com um prisma religioso e em outros tantos momentos tão só pelo sentir que, de facto, nos transmite. Se assumirmos que a literatura proporciona mudança ou alicerces a quem dela frui, este livro pode ser entendido como um bom caso de “literatura de catarse”. São páginas que valem a pena ser lidas.

 

Referência da obra:

Vieira, J. (2017), “Adágios”, Chiado Editora, Lisboa, pp. 97

 

Tem interesse no livro?

Aqui tem o contacto da Autora: teresavieiralobo@sapo.pt

 

O Amor é

 

Este mês apresentamos dois programas “O Amor é”, de Inês Meneses e o Professor Júlio Machado Vaz, com sua autorização. É com grande satisfação que os partilhamos. 
O primeiro dos programas que partilhamos é o “O Amor é (Fim de Semana) - Eugénio de Andrade e os amigos. | 27 Jan, 2018”. Eugénio de Andrade, a sua escrita, poesia, é o foco de uma conversa que nos procura elucidar um pouco mais acerca dos meandros do amor. A natureza humana é aqui observada pelo prisma, fascinante, da amizade. Igualmente se fala da vida do escritor, e de uma forma um pouco mais abrangente das vidas dos escritores, bem como com a possibilidade da sua escrita ser o reflexo dessas vidas ou não ser necessariamente assim. A escrita pode não refletir mesmo a vida do escritor. O melhor é mesmo ouvirmos este programa que nos permite vaguear também pela vida literária. 

 

https://www.rtp.pt/play/p266/o-amor-e-fim-de-semana

 

O segundo programa que aqui se partilha é o “O Amor é (Fim de Semana) Pedrogão - dar a volta. | 30 Dez, 2017”. Como o próprio nome nos revela, tem um tema também ligado ao ambiente, tanto quanto a tragédia dos fogos florestais em Portugal nos permite, por fatalidade, admitir. A abordagem é a da psicologia, ou será antes, poderemos dizer, a estrita visão humanista desta situação, ainda associada à mudança de ano, e a tentativa de nos libertarmos de fantasmas, ou por outras palavras, nos vermos livres de situações adversas nas nossas vidas. Pedrógão é o exemplo aqui sublinhado e o efeito, positivo, da solidariedade gerada nas e pelas pessoas. As famílias humanas são claramente uma realidade profundamente ligada à natureza. Nós somos a natureza. Fica o convite, a ouvirem este programa que nos elucida sobre uma ou várias vertentes das nossas vidas. Quem sabe nos poderemos tornar melhores pessoas, que apoiem a natureza, mas também melhores escritores?

 

https://www.rtp.pt/play/p266/e323082/o-amor-e-fim-de-semana

 

Por Rui M.

Do livro “Pedaços de esperança” a editar em 2018

 

Esperança em pedaços (2)

 

Pequenas partes de mim são esperança,

de um dia maior, de uma luz abrasadora,

de calor, de amor, de sonhos cativos de livros,

de livros que mendigam sonhos para existir.

 

Todos mendigamos um dia a claridade da manhã,

Porque ela nos liberta dos nossos nadas...

Porque nos alimenta com raios atómicos...

Porque não queremos deixar de sentir.

 

E quando um dia, ainda sonhado, ainda por vir,

virem pedaços de vidro às cores pelo chão...

Não são. São partes da minha esperança a resistir.

A sonhar, a orar, a acreditar; nos sonhos que virão.

 

 

Obrigado pela visita.

Até breve.

 

 

 

 

 

 

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