Neste blog são apresentados conteúdos literários. Para qualquer assunto podem contactar o autor via ruiprcar@gmail.com. Aceitam-se contributos de outros autores, de 4 a 24 de cada mês, relativos ao tema Natureza ou Universo :-)
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A poucos dias da divulgação dos resultados do Concurso Literário Natureza 2025 retomaremos a publicação de alguns dos trabalhos recebidos.
Hoje, aqui fica uma fotografia inspiradora e ainda um poema em homenagem a Clara Pinto Correia, a Escritora e Bióloga falecida a 10 de Dezembro de 2025.
Poema a Clara Pinto Correia, por CRA
Na Clara manhã ergue-se a luz,
do sol, essa fornalha de vida,
humedecem-se os ares, as pétalas,
para nós se voltam, como quem convida.
Clara, translúcida, vidente, esclarecida,
a biologia das letras na sala de aula,
a promessa de catarse a páginas cingida,
e ao calor das mãos nos livros.
Luz, pétalas, aulas desses livros,
ouvidos, sorrisos, sonhos vívidos,
amores de planícies sem fim,
e de todos os mundos em mim.
E na tua hora do adeus, de dor,
peço a Deus um pouco do teu talento, de amor.
Clara Pinto Correia defendia mais amor na sociedade e desafiava os seus alunos de biologia a ler romances e instigava-os a melhorar as suas competências de escrita.
Com atraso de um dia… aqui ficam algumas palavras sobre Eça de Queiroz. Na realidade surge uma homenagem que na prática já havia sido dada pelas pessoas que sempre o leram, mesmo hoje. Nunca foi esquecido e, portanto, tem tido a maior de todas as homenagens. Ainda assim, é um marco que faz todo o sentido. O marco é o Panteão Nacional, sem dúvida.
Em primeiro lugar aqui se partilham alguns links noticiosos: https://www.publico.pt/2025/01/08/video/quatro-anos-espera-eca-queiroz-panteao-20250108-142524
Fundação Eça de Queiroz: FEQ.PT https://feq.pt/pagina-inicial-mobile/
No Brasil Escola: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/eca-queiros.htm
É também fundamental hoje falar do seu último romance: A Cidade e as Serras. Aqui alguma informação: https://loja.feq.pt/loja-online/a-cidade-e-as-serras-2/
Aqui a possibilidade de pré-visualizar antes da possível compra. https://www.google.pt/books/edition/A_Cidade_E_As_Serras/fmV7H60Nof8C?hl=pt-PT&gbpv=0
Hoje, adicionalmente, partilhamos um conto por Hanny Ferreira, no qual podemos encontrar um pouco de Eça. Porquê?! Porque contém alguns detalhes descritivos que lhe conferem detalhe e ao mesmo tempo algum sentimento de nostalgia e beleza.
Além dos traços
Maria observava seu retrato desenhado, riscado de intenção em todos os traços. As marcas limpas do grafite na folha, as curvas e círculos perfeitos, mostravam que nada ali era por acaso, que a figura, traduzida no papel, apareceu a ele como o milagre dos raios de sol, atravessando todo o universo; um clarão, feito de vida, despertando a paixão adormecida. Sua gênese. O dia, nublado, engolia a luminosidade, e ela, afeiçoada a terra, repercutia em si o clima. Entre as nuvens, tentava discernir os sentimentos ocultos. Um desenho feio. Um desenho mentiroso, pois a mostrava sorrindo dum jeito inocente, submissa ao desenhista. Aquela, não era ela. Planificada na folha, pesava muito, e muda, dizia “sim” para os sonhos do moço. Em vida, foi fruto do acaso, de rabiscos despropositais numa folha de rascunho. Em vida, diria “não”, estavam em pleno inverno. Nele, nasciam flores brancas e vermelhas. Cravos e rosas no peito aberto. Apossado de efervescência, queria dar a ela faíscas de si. Cultivariam juntos um jardim mais vermelho, mais branco, mais cor-de-rosa. Para que assim, palavras aladas flutuassem na lacuna entre os dois, na distância azul-claro rodopiassem asas de borboleta. A desenhou com uma coroa florida, sua princesa encantada. E a escutava como se sua fala fosse feita de néctar. Jovem e corajoso, oferecia sua paixão, esperando, em troca, agradecimentos embalsados de mel. A cena dos dois lábios se grudando para sempre, num eterno equinócio, faziam encher os cravos de pétalas leitosas. Embriagado, recebeu a ventania. Escondeu a íris, da mesma forma que as montanhas escondem a lua. Fez-se de desentendido. Veio tempestade, porque Maria baixou o queixo, assistiu as gotas de chuva formando círculos numa poça, depois, levantou o rosto. Por 1, 2 segundos, esperou água sair de seus olhos. Não veio. Sua frieza superava a do mundo. Segurou o papel pesado desejando que fosse leve. O devolveu. A tal coroa, de majestade primavera, caia; e, em seu lugar, despontavam chifres de gelo pontiagudo. Disse, enfim, “não”. Saiu do sobrado, seguiu com passos decididos em direção a neblina. Ele, segurou o desenho, o amassou. E, enquanto desaguava torrentes, se encolheu, em soluços, pensando na morte anunciada daquelas milhares de flores.