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Contos das Estrelas

Neste blog são apresentados conteúdos literários. Para qualquer assunto podem contactar o autor via ruiprcar@gmail.com. Aceitam-se contributos de outros autores, de 4 a 24 de cada mês, relativos ao tema Natureza ou Universo :-)

Contos das Estrelas

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Primeiro capítulo de conto [ainda] sem nome

por talesforlove, em 15.01.22

Tal como referido há algum tempo, aqui fica o início de um conto, o qual será dividido em pequenos capítulos. Ainda não tem nome.

 

Capítulo I

 

Sentia-me algures, não sei onde, porque o calor dos lençóis era tal qual o do meu corpo. Não sabia bem, éramos indistintos e, quase sem saber eu aguardava e ansiava por um som que me embalasse, ainda que eu não tivesse consciência disso. Era aquela harmonia, bom, às vezes pouco harmoniosa, que me acordava ou ajudava a acordar já lá iam alguns meses. Em finais de Novembro podemos dizer que nada acontece, mas em Março, quando a ouvi pela primeira vez, a Primavera despontava e aquelas notas, então pouco encadeadas e até, na verdade, bastante desafinadas, pareciam mais algo que existia para me torturar logo pela manhã, e quando digo pela manhã, digo pelas 6 horas da madrugada, durante meia hora, antes que a autora daquela música tivesse de sair para mais um dia de trabalho, ao qual se antecederia, fatalmente, mais uma hora e meia de viagem, em transportes públicos e a pé por ruas sempre apinhadas de gente mas também frias, no sentido em que não eram mais que um obstáculo até ao seu destino final, ainda que o caminho fosse por vezes turístico, não se sentia dessa forma porque, o turista terá de se assumir enquanto tal… e ela era apenas uma pessoa “em trânsito” até ao local de trabalho e nem este nem o trajeto até ele, eram da sua livre escolha.

Não era só a ela que eu sentia a urgência de procurar mas a toda uma vida que pandemicamente se havia esvanecido. Como se me segredassem ao ouvido um suave e longo procura-me. A vida ganhava estrutura de personalidade humana, palpável, com uma identidade que eu não conseguia entender. Um frio agudo percorreu o meu palato, os pés enregelaram, a porta bateu sem razão aparente e eu senti um medo benévolo, dominador da minha alma. Restava-me obedecer e predispor-me a buscar.

Nesse dia de Novembro um vazio profundo fez-me revirar na cama. Sem me aperceber, o tempo transformou aquela música num sustenido da minha vida, que me levava mais além do que era habitual. Sentia-a como aquele por do sol que não esquecemos, vestido de cores que cria em nosso redor que são as mesmas dos sonhos, ou aquele filme que gostamos de rever, porque há sempre mais que ver que, algures no tempo, admitimos que não vimos aquele detalhe, ou também aquela conversa de café que foi muito mais do que algo vazio, pois dissemos o que realmente precisávamos de dizer, saindo pela boca o peso que tolhia a nossa alma, ou ainda aquele passeio pelo bairro, que apaziguou tudo, porque ali tão perto tivemos esse TUDO, que, afinal, nunca sabemos bem o que é. O sustenido é uma elevação de meio tom a uma nota da escala musical, é, portanto, ir além do que seria de esperar e torna-se difícil perceber como isso foi possível. Há uma magia discreta, que para quem não percebe nada de música, se torna difícil de entender, mas não é de estranhar, se não fosse assim não seria magia, porque entender algo parece ser despojar esse ago de toda a magia.

O vento levou algumas folhas pelo ar e uma bateu na minha janela. Pensei que era o início de mais uma sessão de órgão ou piano… mas não. Depois ouvi o som de uma gaivota a piar e pensei que a tempestade a trouxera para ali. Levantei-me de sobressalto e fui à janela. Um dia meio enublado, com uma chuva miudinha aqui e ali e eu percebi que aquele não era um dia normal. E isto era estranho porque não estávamos em época de férias, ainda ontem ao final do dia havia visto chegar a vizinha do piso de cima, a autora daqueles concertos matinais. Pelo contrário, as férias perderam a sua razão de ser, porque a pandemia que nos invadiu em Março de 2020, subverteu os conceitos de descanso, saúde e de trabalho, nunca mais percebi bem o que era mais importante porque afinal tínhamos tudo por garantido e tudo deixou de o ser sem qualquer aviso prévio.

8 horas da manhã, e saí de casa. Levei uma sandes de manteiga vegetal comigo e corri até ao carro. Segui os meus instintos que me levaram até uma pequena rua não muito longe do Parque Eduardo VII. Sabia que ela gostava muito de parar por ali quando, ao final de um qualquer dia de verão, o sol escapava entre as folhas das árvores e com ele o calor que completava todos os espaços em nosso redor e nos fazia mais felizes sem o sabermos, como se pudesse existir uma boa história sem ação e sem que tivéssemos consciência que rigorosamente tudo é passageiro e, na realidade, aqueles momentos são eternos porque nos fizeram sentir bem e é isso que conta, sobretudo quando num dia qualquer nos socorremos da sua memória nos nossos corações.

Andei um pouco com passos vagarosos, quase a fazer lembrar um fantasma, de tão leve e suspenso em pensamentos me encontrava, e subi um pouco pela calçada Portuguesa, vindo do Marquês, optando pela faixa da direita olhando para os bancos de madeira nus e as árvores perenes despidas e as caducifólias sempre verdes, de um verde oliva por vezes negro. A inclinação da subida não me detinha, eu estava decidido, a respiração acelerava sem eu me aperceber e ao olhar na direção da Estufa Fria, não via ninguém e isso absorvia o meu discernimento, nada mais podia fazer, seguia em frente. Um pouco mais acima decidi subir à direita pelo relvado, sem me deter até encontrar a estrada de terra e ao olhar em frente vi-a, sentada no banco ao fundo, a olhar para as copas e de braços estendidos e mãos apoiadas uma na outra, quase sobre os joelhos; parecia imóvel.

Aproximei-me, o som de pequenos pedaços de ramos e folhas secas pareciam denunciar-me e eu sustinha a respiração, não que eu desejasse ser uma surpresa, mas porque não queria perturbar aquele quadro quase inesperado, quase idílico. Tudo me parecia surreal. Eu sustinha o mais profundo ímpeto do meu ser, até que ela olhou para mim e eu me sentei junto dela; nada pareceu inesperado.

Olá, disse-lhe e ela respondeu por aqui. Sim, e tirei a máscara, deixando-a pelo queixo, despi também a máscara dos meus sentimentos e sobretudo dos meus medos e puxei instintivamente a máscara dela para baixo, apenas um pouco, para eu a beijar de uma forma tão plena de novidade quanto aquele era mesmo o nosso primeiro beijo. Ela não disse nada, apenas sorriu encantadoramente, cúmplice, e eu voltei a colocar as máscaras no lugar. Ficas bem, perguntei e ela respondeu que sim.

Após o olhar feito de calor, parti, aquele dia era um dia de busca pela nossa vida passada e agora reinventada. A voz interior que chamava por mim, continuava a fazer-se sentir. Segui, contornando o Pavilhão Carlos Lopes, subi até ao Jardim da Amália e desci logo depois para voltar a dirigir-me para a Avenida da Liberdade.

 

[Continua]

 

Até breve.

Fogo de Vulcão e Fogo da Humanidade

por talesforlove, em 01.10.21

Recentemente, a erupção de um vulcão em Las Palmas, Ilhas Canárias, tornou evidente que existe poluição de origem natural e com impacto na saúde humana. Um artigo científico, sobre a atividade vulcânica nos Açores e seu impacto na saúde humana é o seguinte: "Sleeping volcanoes, awaking health issues: the hazardous effects of hydrothermal emissions on the human respiratory system" por Patrícia Garcia et al.. Infelizmente, este trabalho encontra-se apenas disponível em Inglês. Neste texto refere-se o impacto da poluição atmosférica através das vias respiratórias. Para evitar os efeitos nefastos, sugere-se, por exemplo, que quem vive em habitações térreas durma nos pisos superiores.
No conto seguinte, incluído na Antologia Natureza 2020-2021, refere-se um outro fogo, causado por ação humana. Também ele igualmente perigoso... Entretanto, fica a nota que ainda não foi possível iniciar a publicação de um conto em parcelas, periodicamente, tal como já referido anteriormente.

 

“Projecto Urano” por Alberto A.


Nos anos 1980-2000, a região do Corno da África foi “terra de ninguém”,
afundando sempre mais em uma sangrenta guerra civil. O tráfico ilegal
fundara por aí o paraíso internacional das descargas de lixo. Barcos,
carregados com lixo tóxico e radioactivo, viajavam da Europa em
direcção ao Oceano Índico. Recifes, caranguejos, lagostas, conchas do
mar, palmeirais e manguezais, o perfume de incenso e mirra, as memórias
épicas de comerciantes e viajantes... Todo aquele mundo ficou poluído,
submerso sob montes de lixo tóxico e radioactivo. Os marinheiros
pagavam as consequências, quando tomavam banho no mar.
Para resolver os problemas da poluição radioactiva na Europa, um
engenheiro realizou o “Projecto Urano”: torpedos, carregados com
escórias radioactivas, eram jogados no fundo do Oceano, ao longo das
praias da Somália.
No mês de Dezembro de 2004, um terremoto sacudiu a ilha de Sumatra.
Vagas gigantes, com até trinta metros de altura, atravessaram todo o
Oceano Índico. Houve quase trezentos mil mortos, mas as perdas ao longo
da costa africana não foram graves, pelo menos não em termos de vidas
humanas. A maré do maremoto arrasou e deslocou milhares de metros
cúbicos de areia, destruindo grandes extensões de recifes de coral,
trazendo à luz tambores, torpedos e recipientes de resíduos perigosos.
Muitos daqueles recipientes começaram a flutuar, abrindo-se e
derramando seu conteúdo nas praias.
Luminescências raras podiam ser vistas à noite, nos recifes, e a morte
de caranguejos e lagostas se espalhava como uma epidemia ao longo da
costa. Tapetes de peixe morto ficavam colados nas praias ao pé das
palmeiras. Centenas de animais no fundo do mar morreram de
contaminação. As populações costeiras relataram distúrbios raros:
anemia, inchaço, problemas respiratórios, insuficiência hepática.
Um pescador encontrou um pedaço de metal brilhante, preso no recife.
Ele tocou o cilindro e recebeu uma cruel sensação de queimação. O braço
enfraqueceu e a pele caiu, queimada, como se tivesse tocado uma
substância ácida. Então o cabelo começou a cair. Ele morreu lenta e
dolorosamente. Um fogo interior o devorou, nenhum médico, nenhuma cura
poderia salvá-lo. O que ele encontrara era lixo radioactivo, uma
pequena parte da imensa quantidade de lixo que os navios despejaram
na costa da região.
Mohamud era um menino de seis anos, brincava com seus amigos na praia.
À medida que a maré baixava, eles perseguiam os caranguejos. Com a
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maldade ingênua das crianças, os chutavam, como se estivessem jogando
bolas.
Um dia, Mohamud viu uma caixa escorrendo um líquido verde denso e
vagamente fluorescente. O garoto tocou e esfregou as mãos, como fazia
com sabão. Foi o maior erro de toda a sua jovem vida. Desde então, o
menino foi consumido por uma dor terrível. Não comia, não dormia e se
contorcia, não conseguia mais se segurar nas pernas. Todo o cabelo dele
caiu. Ficou rapidamente debilitado. Para o nosso amiguinho,
infelizmente, nada podia ser feito. Mohamud ainda não tinha sete anos.
Quem sabe que o sacrifício dele – e de outros como ele – não constitua
o preço por que aquela terra, com seu mar, retorne à paz e à beleza
do passado? Queria lembrá-lo como um pequeno símbolo, uma gota no oceano
de sofrimento que continua assombrando o Corno da África. Um sacrifício
que pode nos convencer a salvar os povos, os mares, as praias dos países
equatoriais, paraísos condenados, em um mundo sem paz nem
desenvolvimento.

 

Até breve.

 

Para as vítimas dos Fogos e Cheias

por talesforlove, em 17.07.21

Os recentes incêndios no Canadá, Chile e EUA, com as altas temperaturas a acompanhar a tragédia, só por si já eram manifestações importantes de alterações climáticas e/ou ação nefasta dos seres humanos sobre o ambiente.

Recentemente, as cheias na Alemanha, confirmadas como um resultado de aquecimento global, somam ao espanto já antes sentido... Afinal, é mais uma situação difícil de entender.

 

Fica hoje um conto por Vitor G. (Brasil), no qual a natureza é vista com alguma apreensão. 

 

Título: Conhecendo a natureza

 

Eu estava voltando do trabalho para casa, andando pelas ruas

movimentadas e escutando nada a não ser o som de motores e buzinas. O

ar estava fresco, mas eu sentia a poluição do trânsito, que o deixava

mais pesado. Já começava a anoitecer e as luzes dos postes já se

acendiam, tingindo o solo de um tom ora amarelado, ora azulado, num

contraste entre quente e frio que dava um aspecto ambíguo às ruas.

Isso se dava por estarem substituindo as lâmpadas de vapor de sódio,

amareladas, por lâmpadas LED mais modernas, de tom azulado. Segui pelo

caminho, observando as luzes e o intenso azul-escuro do céu que

anoitecia.

 

Caminhei pensativo, com as mãos nos bolsos e cabeça arriada, olhando

para o chão e desviando dos lixos que via pelo caminho. Minha vida era

infeliz. Eu podia até ter um trabalho que pagasse razoavelmente bem,

mas não tinha mais nada, nem amigos, nem família. Nada. Pensei em como

minha vida era desse jeito devido à maneira como a sociedade moderna

vive. Nós nos afastamos da natureza de tal maneira, que vivemos num

mundo artificial, fazendo atividades artificiais e vivendo

relacionamentos artificiais.

 

Imaginei então que eu pudesse buscar ter mais contato com a natureza.

Isso talvez me fizesse bem, mesmo que se fosse apenas por alguns dias.

Eu estava prestes a entrar de férias no trabalho, então imaginei que

eu pudesse aproveitar alguns dias em algum lugar mais afastado.

Cheguei em casa e logo pesquisei na internet por locais turísticos,

com natureza, próximo de mim. A maior parte dos lugares que eu

encontrava eram hotéis fazenda, mas não era o que eu queria. Eu queria

ter contato com algo natural, que pudesse me sintonizar com a natureza

de uma forma mais primal, então continuei pesquisando até encontrar um

hotel próximo a um morro na região. Não era um morro muito alto. Seu

ponto máximo estava a 405 m de altitude. Podia não ser tão alto, mas

para mim, que vivia preso dentro da cidade, seria algo fabuloso.

 

Pesquisei então pelos atrativos turísticos do local e vi que haviam

diversas trilhas que poderiam ser feitas. Isso era exatamente o que eu

precisava. Fazer uma trilha até o topo do morro certamente me faria

bem e me conectaria com a natureza, há tanto desconectada, pelos

longos anos preso dentro da mesma cidade.

 

Eu nunca havia feito uma trilha como essa antes e não fazia ideia do

que levar, então pesquisei na internet e encontrei diversos vídeos

explicando as dificuldades que eu enfrentaria e me recomendando que

utilizasse calças compridas, tênis, boné ou chapéu e repelente, além

de levar água para ir bebendo durante o percurso. Foram ótimas dicas.

Eu já pensaria em ir de calça e tênis, mas não teria lembrado de levar

o repelente.

 

Sem delongas, fiz minha reserva no hotel e já no dia seguinte, comprei

o repelente numa farmácia. Aguardei ansiosamente até que entrasse de

férias, para comprar minha passagem e me preparar. Arrumei minha mala

dias antes, colocando tudo que precisava e conferindo várias vezes,

para me certificar de que não estava esquecendo nada. Enfim, o dia

chegou e caminhei com a mala nas costas até a rodoviária, onde peguei

o ônibus que me levaria ao local. Foi uma viagem tranquila e sem

eventos. Passei a maior parte do tempo olhando pela janela e

observando como a paisagem se transformava gradualmente, à medida que

eu me afastava dos centros urbanos. O cinza era substituído pelo verde

e as caóticas construções de concreto e argila eram substituídas,

primeiro por longos campos repletos de gramíneas, onde podia-se ver

numerosos rebanhos pastando sob o ameno sol da manhã. Em seguida, os

campos eram substituídos por densas matas, por onde os raios de sol

sequer conseguiam atingir o solo. Eu me aproximava do local.

 

Desci do ônibus num pequeno povoado próximo ao morro e de lá, segui

para o hotel, onde desfiz minha mala e tomei um banho. Em seguida,

desci para almoçar num restaurante próximo. Era um local rústico e de

comida caseira. Não havia nada de luxuoso, mas a comida era gostosa.

Retornei ao hotel para escovar os dentes e então caminhei até o parque

do morro, onde aguardei na recepção de turistas, enquanto esperava que

o pesar do almoço se aliviasse. A recepção era uma construção simples,

onde várias pessoas entravam e saíam. Os que estavam chegando, paravam

para ler as informações sobre o lugar, enquanto os que estavam

retornando, paravam para descansar.

 

De acordo com as informações nos cartazes, o morro tinha 405 m de

altitude, o que não era nada espantoso, mas era o ponto mais alto da

região e possuía um dos maiores isolamentos topográficos do país, de

aproximadamente 2000 km, significando que em um raio de 2000 km não

havia nenhum ponto mais alto do que aquele. Após ler diversas

curiosidades sobre o local, saí e caminhei rumo à trilha. Eu estava

preparado, com a roupa adequada, repelente e água. Não levei mais nada

e sequer carreguei o celular para tirar fotos, pois eu queria me

aproximar da natureza.

 

Iniciei a caminhada entusiasmadamente, em rápidas passadas. À minha

frente havia um grupo de jovens, que ocupavam toda a espessura da

trilha, então procurei a primeira oportunidade de deixá-los para trás

e segui. Passei por algumas pessoas que subiam sozinhas, alguns casais

e um grupo da terceira idade, que pareciam ser os mais animados de

todos.

 

Eu estava tão acostumado a andar em planícies, que a subida me cansava

facilmente. Eu sentia o esforço dos músculos das minhas pernas,

enquanto minha respiração ofegava. Percebi que eu jamais conseguiria

chegar ao topo se andasse daquela maneira, então diminuí o passo e

parei para descansar em alguns pontos. Logo vi algumas das pessoas que

eu havia deixado para trás me ultrapassando.

 

Bebi um pouco da água e continuei. Dessa vez, andei mais calmamente,

observando a paisagem. Havia a mata para ambos os lados e a trilha era

a única parte onde se podia andar. Estava ligeiramente escuro, apesar

de estar em pleno início de tarde. O verde das folhas parecia

refrescar a minha visão, há tanto contaminada pelo cinza O ar, embora

mais difícil de respirar, era agradável e de pureza inigualável.

Caminhei por entre as folhagens, escutando os sons de pássaros por

toda parte, num coro que superava em beleza a música de qualquer

orquestra. Segui, acompanhando a trilha com cuidado, sempre observando

onde pisava. Eu estava prestes a entrar em contato com a natureza e

conhecê-la como nunca antes.

 

Precisei fazer mais uma pausa e bebi o restante da água que eu tinha.

Meu suor escorria pelo rosto e meu coração estava disparado. Sentei

numa pedra e descansei por um longo tempo, até que me recuperasse por

completo. Não tardou até que o grupo de jovens passasse por mim, me

deixando para trás, numa ironia que parecia ser proposital.

 

Levantei então e continuei a subida, que se tornava mais íngreme. Os

músculos das minhas pernas doíam a cada passo e eu já me perguntava se

eu não deveria retornar, mas eu precisava me aproximar da natureza e,

certamente, o topo do morro seria um formidável ponto para meditação.

Além do mais, dizem que o caminho de volta é sempre mais fácil, então

persisti, ainda que em fortes dores.

 

Mais uma pausa foi necessária e dessa vez eu não tinha água para

beber. Enquanto eu repousava, o grupo da terceira idade me

ultrapassou, me deixando constrangido com a situação. Eles claramente

não viram maldade alguma em me ultrapassar e me cumprimentaram

calorosamente antes de seguir. Pensei em acompanhá-los, mas eu ainda

não havia descansado o suficiente. Olhei para uma placa de indicação e

vi que eu já estava na altura de 320 m, então não faltava muito para

terminar a subida.

 

Com sede, fome, cansado e dolorido, continuei o percurso, que se

tornava tão íngreme, que eu já apoiava as mãos no chão para ajudar,

mas, ainda assim, persisti na minha subida. O sol já não estava mais

tão intenso e, sob as folhagens, formava-se uma sombra assustadora,

que me dava uma sensação de pressa como nunca antes, fazendo com que

eu adiantasse os passos, apesar da minha condição física.

 

Eu já cruzava com diversas pessoas descendo o morro, fazendo o caminho

de volta. Muitas delas eu reconhecia, pois haviam subido comigo ou as

vi na recepção. O volume constante de pessoas retornando me fazia

perceber que já estava ficando tarde e que logo o sol se esconderia,

deixando uma profunda escuridão, que muito dificultaria o trajeto. Eu

me perguntei mais uma vez se eu deveria descer logo, mas faltava pouco

e eu precisava muito desse contato com a natureza, então persisti,

usando todas as minhas forças para terminar o percurso.

 

A vegetação já se tornava esparsa e dava lugar a um terreno rochoso,

indicando que eu me aproximava do topo, o que era confirmado pelas

placas de indicação, que mostravam a marca de 390 m. O céu já adquiria

uma tonalidade rosada, sinal de que o sol se aproximava do horizonte e

que eu deveria me apressar ainda mais. Eu apenas subiria ao topo para

contemplar a natureza e logo desceria, antes que escurecesse, pois não

fazia mais sentido retornar no ponto onde eu estava sem visitar o

tipo.

 

O momento chegou e eu estava prestes a atingir o topo do morro, de

onde eu poderia contemplar a natureza como nunca antes. Eu estava

sozinho, o que me daria uma maior introspecção. Um estado de ânimo se

espalhou pelo meu corpo, enquanto eu dava os últimos passos, forçando

minhas doloridas pernas a subir. O céu já estava prestes a iniciar a

escurecer e eu deveria ser breve. Apenas contemplaria brevemente a

natureza e retornaria.

 

Eu não sei o que eu esperava encontrar no topo do morro ou de que

forma a natureza se apresentaria lá de cima, mas a imagem que vi me

chocou, fazendo com que eu repensasse tudo que havia construído a

respeito da natureza. Assim que cheguei ao cume, avistei um gavião que

estava a devorar uma ave menor, que, ainda viva, sacudia o corpo em

vãs tentativas de fuga. A ave estava com o corpo aberto e suas

entranhas expostas, agonizando de dor, enquanto o gavião beliscava sua

carne esporadicamente e a engolia com uma calma perturbadora,

levantando o pescoço e olhando para algo distante a cada nova

beliscada, sem se importar com o sofrimento da ave e sequer se dando o

trabalho de matá-la antes de comer. A julgar pelo estado em que se

encontrava, a ave parecia estar ali há algum tempo, numa incessante

agonia, sem forças para sequer clamar por socorro.

 

Ao me aproximar, o gavião se assustou e voou, largando a desafortunada

ave para trás, diante dos meus olhos, em sua agonia terminal. Era uma

imagem perturbadora, que me fazia questionar minha subida ao morro.

Tentei observar a paisagem, mas eu não conseguiria ignorar o

sofrimento da ave, porém, ao mesmo tempo, não havia nada que eu

pudesse fazer para salvá-la, pois sua morte era inevitável naquelas

condições.

 

Incomodado com a cena e sentindo compaixão pela ave, decidi que o mais

correto a se fazer seria matá-la de uma vez, para pôr fim em seu

sofrimento. Porém, eu não possuía nada comigo que pudesse ser

utilizado para matar a ave, então teria que pisar em cima dela, com

toda a minha força. Olhei em seus olhos e vi o retrato da agonia. A

ave parecia implorar para que eu a matasse, então, relutante, fechei

os olhos e desferi um forte golpe com os pés, numa tentativa

fracassada de encerrar sua vida, mas que causou apenas mais sofrimento

ao animal e me deixou perturbado por acertar algo de textura maleável,

que se movia em agonia, em efêmera tentativa de escapar.

 

Com um forte sentimento de culpa, tentei pisar mais uma vez, para

matá-la, mas, novamente, a ave não morreu. Eu já entrava em desespero

por causar ainda mais sofrimento ao animal, em vez de encerrá-lo,

então, movido pela aflição, dei uma sequência de pisadas fortes sobre

o bicho, que finalmente encerraram sua vida.

 

Ofegante, me afastei e observei o corpo do animal, já inanimado. Eu

havia subido o morro para conhecer a natureza e havia visto o seu pior

lado. Passei meus momentos de introspecção pensando no que havia

acabado de acontecer e desde então, eu tive a consciência do quão

cruel ela pode ser e nunca mais a glorifiquei como havia feito.

 

Se desejar fazer algo em memória das vítimas, poderá, por exemplo, fazer menos uma viagem de automóvel (movido a combustíveis poluidores) ou diminuir a velocidade durante a viagem. Ambas formas de diminuir a emissão de gases responsáveis pelo eveito de estufa.

Até breve.

Concurso Natureza 2020-2021 - Primeiros Resultados

por talesforlove, em 09.05.21

Bom dia!

Divulgam-se os primeiros resultados do Concurso Literário Natureza 2020-2021!

No próximo dia 13 de Maio, esperamos divulgar os restantes trabalhos que serão também incluídos na Antologia. Só depois serão partilhados os poemas a Marco Paulo!

 

POESIA:

1º lugar: “O Gaio” por Teresa Barranha (Portugal)
2º lugar: “Lágrimas de Sereia” por Regina Gouveia (Portugal)
3º lugar: (empate técnico)
“Cores de Novembro” por Catarina Canas (Portugal)
e
“Flores Urbanas” por Marcelo Souza (Brasil)


CONTO:

1º lugar: “O Amigo” por Sónia Rodrigues (Brasil)
2º lugar: “Projecto Urano” por Alberto Arecchi (Itália)
3º lugar: “Conhecendo a Natureza” por Vitor Gonçalves (Brasil)

 

Muitos parabéns!

Muito obrigado aos Membros do Júri pelo trabalho atento de ler todos os poemas e contos recebidos.

Entretanto, como hoje chove em Portugal, partilha-se a canção "Chuva" pela Fadista Mariza.

 

Até breve.

 

 

 

“A grande extinção” por Joaquim B. - Antologia 2019 - Portugal

por talesforlove, em 09.02.21

A grande extinção


Albbano chegou cedo ao “Fetal”, com o coração de sangue frio em agonia. Na véspera,
vários dos seus torossauros poedeiros davam mostras de mal-estar e doença. Alongou o olhar
pelo extenso paúl em que habitualmente pastavam e não pôde evitar o desalento. Só meia
dúzia ainda era visível. Em ansiedade, apressou o passo para a chocadeira central.
O sol iniciava o percurso descendente sobre a área predominantemente agrícola que
será conhecida, sessenta e cinco milhões de anos depois, por Lourinhã e se estende bem para
dentro do espaço que será mar no futuro. Em todos os ninhos urbanos terminaram já as
diligências alimentares do período zenital, exceto no ninho de Albbano. Não é comum ele
atrasar-se, quanto mais não aparecer em tempo de tão vital necessidade. Almmina mantinha
quentes as fatias de ovos de anquilossauro com caules tenros de rhynia, enquanto, inquieta,
espreitava o caminho, na esperança da chegada iminente do companheiro. A certo momento,
achou que tamanho atraso não podia significar nada de bom e resolveu pedir ajuda ao filho de
ambos, através do comunicador. Alccino não se surpreendeu com a chamada da mãe, porque
era frequente ela ligar-lhe só para contar pequenas peripécias domésticas, mas quando ouviu a
voz angustiada da mãe a dizer que o pai ainda não chegara para se alimentar, entregou de
imediato as tarefas de extração salina que executava numa bacia marinha interior e correu a
procurar o pai. Já não era a primeira vez que ele se perdia ou dava sinais de desorientação.
— O teu pai saiu do ninho mal raiava o sol e disse que ia ao Vale Fetal, como todos os
dias — informou ela. — Estamos na época em que eclodem muitos ovos e é preciso não haver
descuidos com as dificuldades das crias.
— Está bem, mãe, não te preocupes que eu vou procurá-lo. Assim que o encontrar,
comunico contigo — sossegou-a ele.
Alccino transpôs rapidamente a distância até à exploração pecuária do pai. Com o olhar
percorreu as suaves ondulações cobertas de polipódios, onde pastavam pachorrentamente
uma dúzia de torossauros, e a tentar discernir que animais chafurdavam na lonjura dos paúis
das zonas baixas. Não viu a silhueta altiva do pai, um parassaurolofo corpulento, mas um pouco
dobrado pela idade. Entrou na chocadeira central, e os funcionários disseram que o tinham
visto cedo, mas que ficara abatido quando soubera de mais três eclosões goradas.

Alccino pediu a dois para, em conjunto, fazerem uma busca na exploração.
— Eu vou pela encosta do lado esquerdo, e vocês procurem no vale, junto à zona
húmida! A propriedade é grande e ele pode estar caído em qualquer lado.
Embora achasse que era mais provável encontrá-lo nas zonas baixas, pensou que, em
cotas mais elevadas podia avistar maiores distâncias e descobri-lo. Após um tempo de
caminhada atenta pela vertente da ladeira, alcançou o alto da colina. Cheiros adocicados
embebiam-no. Por momentos, abstraiu-se do que o trouxera ali. Olhou em toda a volta. Para
norte, a vista admirável e querida do seu Vale Fetal, com o verde de vários matizes a colorir a
distância até à vertente oposta e mais além. Para sul, a dois vales de distância, as manchas
redondas e ocres dos ninhos urbanos da povoação. Mais perto, os vales dos vizinhos e amigos
Olvvonos e as suas explorações pecuárias de alamossauros, os enormes herbívoros ternos e
pachorrentos. Seria possível que o pai tivesse vindo visitar os amigos? Antes de decidir procurálo junto dos vizinhos, pensou entender o que acontecera. O pai tinha ficado desanimado com as
notícias da manhã na chocadeira e, com a idade, isso desorientara-o. Veio-lhe à memória outro
episódio de há muitos anos, quando uma epidemia lhe matara dezenas de animais. Nessa
altura, foram encontrá-lo amodorrado numa enorme rocha lisa virada ao sol do oeste, donde se
avistava o mar e aonde só se chegava por uma vereda. Avisou a mãe e pôs-se a caminho.
Realmente foi encontrar o pai alapado na Pedra do Poente em grande prostração. A
crista, habitualmente alaranjada, era agora cinzento-esverdeada. Não parecia ferido, só
abatido. Aproximou-se suave, mas não furtivamente. Queria ajudá-lo, não invadir a sua
privacidade.
— Então, pai! Está aqui! Estávamos a ficar preocupados...
Não obteve reação. Albbano mantinha um olhar de enorme tristeza perdido na lonjura.
Nada parecia poder animá-lo.
— Não fique assim, pai! — disse Alccino cheio de ternura. — São só mais três ovos
gorados. Já aconteceu muitas vezes.
O rosto do ancião baixou, em dor interior, sem responder.
— Tem de aceitar, pai! Os tempos de fartura e fertilidade já lá vão. Este é o mundo que
temos agora.
Alccino comunicou com a mãe a sossegá-la e continuou a tentar animar o pai, com
argumentos racionais de relativização dos prejuízos. Finalmente, Albbano começou a falar em
voz baixa, pausadamente.
— Não são só mais três ovos gorados, filho! Nós estamos a extinguir-nos. O ambiente
está envenenado com os compostos de irídio que servem para tudo. As crias não conseguem

romper a casca. Está cada vez mais dura e inquebrável. E não é só com os animais. Como já te
contei algumas vezes, para tu nasceres, houve que quebrar a casca artificialmente. Nós, os
parassaurolofos, praticamente já só nascemos de crustatomia. Se não fossem os cuidados
obstétricos, desaparecíamos. O panorama geral é preocupante. As crias não conseguem romper
a casca, os ovos não são fertilizados, as populações de todas as espécies estão a diminuir a um
ritmo assustador. Todos os anos desaparecem muitas espécies para sempre.
Calou-se, por momentos, como que a lembrar-se de outros exemplos. Alccino respeitou
o silêncio do idoso.
— A destruição da vida no planeta, tal como a conhecemos, está a tomar proporções
gigantescas. Dantes, além, avistava-se o tremeluzir da superfície do mar. Agora, o que se vê são
reflexos de objetos a flutuar. Mantas de tralha a cobrir enormes áreas de oceano. Há quanto
tempo lá não vais? É triste, deprimente, apetece não voltar lá mais. Como nos deixámos chegar
a esta situação? Estamos mesmo em perigo, acredita!
Fez uma pausa, a ganhar alento.
— Eu vou-me informando, sabes! Recebo revistas científicas. Já houve outras épocas da
Terra com indícios semelhantes e que resultaram em enormes extinções. A maior foi há 185
milhões de anos, que fez desaparecer 96% das espécies marinhas e 70% das terrestres. Devido
à gravíssima situação que atravessamos, os cientistas já lhe chamam a Extinção em massa do
Cretácico, a época atual, ou a Quinta Extinção. Estão registadas cerca de 800 espécies extintas,
nos últimos quinhentos anos, mas, como a maioria não está documentada, os cientistas
calculam que é mais provável que se tenham extinguido entre vinte mil e dois milhões de
espécies, só no último século. E, tendo em conta os limites do conhecimento atual, a taxa anual
de extinção pode chegar às 140.000 espécies. Estamos no limiar da catástrofe.
Alccino agachou-se, abatido pela força terrível dos números que o pai lhe atirava. A
preocupação com o desaparecimento do progenitor desvanecera-se, mas agora um peso
inesperado acabrunhava-o. Como era possível que nunca tivesse ouvido falar disto?
— Percebes, agora, porque estou desanimado, sem esperança? — interpelou-o
Albbano. Há muito que me vou dando conta do que os cientistas vão divulgando.
— Mas, pai — reagiu Alccino —, não são só teorias malucas de tipos que veem um
mosquito e lhes parece um alamossauro? É que eu nunca ouvi falar disso…
— Não, Alcci, quem afirma que a extinção atual é um facto são cientistas conceituados
entre os seus pares. Dão conferências, mostram dados, mas parece que ninguém os ouve. E
dizem mais; dizem que somos nós — a espécie dominante —, que estamos a provocar a
extinção em curso. Com a caça intensiva, a introdução de organismos perigosos para os nativos,
a destruição dos habitats naturais, a desflorestação, a sobreexploração agrícola, a poluição e o
envenenamento com agrotóxicos e hormonas pecuárias. Isto, sem falar do problema que está
na raiz de todos estes: o crescimento populacional contínuo da nossa espécie e o consequente
sobreconsumo.
— Mas sempre houve espécies a desaparecer de maneira, digamos, natural, pela natural
seleção natural…
— Sim, só que com a nossa ação, a que alguns também chamam natural, mas de
extensão e intensidade avassaladoras, a perda de biodiversidade é dez a cem vezes mais rápida.
E seremos nós que acabaremos por pagar um preço demasiado alto, pela rápida diminuição do
único conjunto de vida que conhecemos no Universo. Ficaremos sozinhos.Sem a concorrência
que vencemos, extinguimo-nos também.
— Isso não pode ser assim tão dramático, pai. Nós somos a espécie mais bem sucedida
de toda a história do planeta...
— Este sucesso começa a parecer demasiado catastrófico. Quando há tipos que, como
eu, prestam atenção aos problemas ambientais, também não sabem como resolvê-los ou
ajudar a minorá-los. A minha “solução” hoje foi esta: deprimir-me. A da nossa espécie devia ser
positiva, assertiva, concertada, global, muito profunda. Eu não quero mostrar-te para onde
deves olhar, só gostava que tomasses consciência de que há muita coisa a distrair-nos e que
nos deixamos alegremente ocupar com problemas menores. A maior razão da minha
desesperança é que não acredito que algum dia consigamos inverter o caminho de razia que
trilhamos. Quando deteriorarmos o planeta a um nível irreversível, seremos nós a extinguirnos. Ironicamente, essa pode ser a solução para o planeta: livrar-se de nós.
Albbano calou-se. Pai e filho mantiveram-se pensativos ainda por algum tempo. Talvez por ter
desabafado, Albbano começou a sentir-se com forças para regressar. Em passos brandos,
porque já anoitecia, dirigiram-se para casa, em silêncio. Por cima do horizonte, ia nascendo o
cometa, que, havia meses, iluminava as noites em todo o mundo. A enorme cauda ocupava já
todo o lado nascente do céu. Caminhando para aquele clarão, pareceu-lhes que a esperança
num mundo renovado aumentava no seu ânimo.

 

Até breve.

“Mentes reutilizáveis” por Diana Pinto

por talesforlove, em 07.02.21

Partilhamos um conto selecionado para a Antologia 2018-2019.

 

“Mentes reutilizáveis” por Diana Pinto, Portugal

 

– Temos que separar! É uma necessidade. – Disse a professora de português no final da aula
aos seus alunos do nono ano.
Rita saiu da escola e caminhou até à paragem de autocarro sempre a pensar nas palavras da
docente. Em casa nunca separavam o lixo. Sempre colocavam os sacos nos caixotes de lixo
comum. Era o único que tinham perto de casa.
A estudante sabia que seria um problema convencer a mãe a separar o lixo. A progenitora era
de mente pouco aberta, tinha medo da mudança e ainda possuía pensamentos do século XX.
Era uma mulher cinquentona, trabalhadora e honesta. Seria um desafio para a jovem, mas ela
parecia animada. Iria convencer a mãe. Ela tinha a certeza disso.
Chegou a casa e entrou na cozinha. A mãe estava a preparar alguma coisa que Rita não
conseguiu saber.
– Então, querida, como correram as aulas?
– Bem.
Antes de falar em separar o lixo, Rita começou a tentar convencer a mãe a retirar o plástico do
lar.
– Podemos começar a utilizar sacos de tecido.
– Foi a tua professora quem te disse isso?
– Sim.
– Pelo menos, não pago dez cêntimos por cada saco.
Rita sorriu.
– E sem garrafas de água de plástico. Copo térmico para tudo!
A mãe olhou, escandalizada. A filha continuou a dizer que teriam que usar cotonetes 100%
algodão, ou de metal. A mãe nem sequer sabia que isso existia.
– E temos de escolher sempre as embalagens de papel. É pena, mas temos poucas alternativas,
de momento. Mas ainda acredito que vamos a tempo de salvar as florestas!
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A mãe respirou fundo.
– Já entendi que percebeste o que aconteceu durante a última aula.
– Sim, mãe, sabias que, para os peixes, plástico é uma refeição?
– Sim, sei. Mas diz-me uma coisa, tu por acaso sabes que não deitar lixo para o chão também é
uma sugestão que todos fazem?
Rita engoliu em seco. Era um erro que cometia quando estava a passear na rua. Ela era
“adepta” da chamada “lei do menor esforço”.
– Quando começares a fazer isso, deixo-te separar o lixo. Caso não saibas, também eu conheço
a política dos 3 R’s.
Rita saiu da cozinha, envergonhada. Afinal, a mãe já sabia. Mas, pelo menos, agora as duas
iriam ajudar o planeta. Iriam fazer a coisa certa.

 

Até breve.

Concurso Literário - "Natureza 2020-2021" - O Universo Nossa Casa

por talesforlove, em 27.12.20

0Estamos de regresso com a Edição 2020-2021 do Concurso Literário Natureza. Vivemos tempos diferentes, que nos obrigam a rever a nossa forma habitual de nos posicionarmos perante a vida. O lado positivo, é aquele que sempre interessou a este Concurso e é-o especialmente hoje: dia em que começou o processo de vacinação em Portugal, contra a Covid-19!

O convite é semelhante ao feito o ano passado:

Concurso Literário - "Natureza 2018-2019" - O Universo Nossa Casa - Contos das Estrelas (sapo.pt)

https://contosdasestrelas.blogs.sapo.pt/concurso-literario-natureza-2018-2019-47274

 

Convida-se à escrita de um poema ou conto breve tendo como principal fonte de inspiração a Natureza. Em toda a sua beleza e força, como sinal de esperança e crença num 2021 cheio de Paz e Felicidade. Também a Natureza do Universo, é digna de um poema ou conto, tal qual em edições anteriores!

O tema dos micro plásticos e o tema da poluição atmosférica, são aqueles que mais nos chamaram a atenção este ano. Por exemplo, ao reparar um eletrodoméstico, poderá alterar o volume de resíduos que vão acabar a poluir o ambiente e assim evitar que o plástico se degrade sem controlo, até formar pó e ser absorvido pelos organismos vivos. Igualmente, se se deslocar mais vezes nas proximidades da sua habituação e a pé, poderá também reduzir a libertação de fumo na atmosfera. Adicionalmente, uma apresentação em Power Point com um fundo escuro e sobre ele letras claras, irá permitir um consumo inferior de energia elétrica, a qual, ainda hoje, é maioritariamente produzida com fontes de energia não renováveis, se olharmos para o conjunto do planeta.

 

O Regulamento para 2020-2021 é o seguinte:

 

  1. A participação neste concurso é gratuita.

 

  1. Qualquer pessoa de qualquer país pode participar desde que submeta trabalhos escritos em português.

 

  1. Cada participante pode enviar um poema, sem limite de palavras, e um conto, com um máximo de 3000 palavras.

 

  1. As obras devem ser enviadas por e-mail para Rui M. (blogsnat@gmail.com) juntamente com nome, país, contacto eletrónico. O assunto do email deve ser "Concurso Literário Internacional 'Natureza - 2020-2021'". Espaçamento entre linhas: espaçamento simples; Dimensão da letra: 12; Tipo de letra: Calibri; textos no corpo do e-mail e não em ficheiro.

 

  1. Os autores participantes concordam em receber e-mails no futuro que tenham como objetivo principal divulgar futuras iniciativas literárias. Devem subscrever o blog (caixa no topo).

 

  1. Os finalistas vencedores de primeiros prémios têm direito a um certificado digital.

 

  1. Todos os poemas selecionados serão publicados em antologia, que estará disponível em formato PDF (possibilidade de existir no Windows), com um custo de 2,5 € (pagamento de uma doação pelo PayPal). Os autores premiados têm direito a uma versão gratuita.

 

  1. Direitos do autor: os autores têm os seus direitos sobre os trabalhos publicados, a fim de publicar como quiserem em qualquer outro lugar. A organização do Concurso detém direitos totais sobre os trabalhos publicados no contexto da Antologia digital do Concurso ou Obra do Concurso em papel.

 

  1. Prazo para participação: de 13 de Março a 13 de Abril de 2021.

 

  1. Eventualmente, haverá um mês extra de Concurso mas tal só se saberá após 13 de Abril 2021.

 

  1. Os resultados finais serão anunciados cerca de dois meses depois do final do concurso em http://contosdasestrelas.blogs.sapo.pt e, quando possível, em outros websites a indicar no futuro próximo.
  2. Publicação impressa via financiamento coletivo, sem obrigação de participação de Autores, com abdicação de Direitos de Autor conforme contrato. Edição sujeita a número mínimo de participantes atendendo a viabilidade da obra.
  3. O primeiro de cada categoria terá direito a um prémio: obra de arte (uma pintura A4) enviada pelo correio.

 

Membros do júri:

 

Karina I.

Escritora Brasileira

 

Lince Verde

Escritor Português

 

Outros: A designar.

 

Parceiros:

A confirmar.

 

Este ano também homenageamos Marco Paulo, o grande Cantor de música ligeira e romântica, que é uma referência para a música Portuguesa.

Convidamos a uma visita à página da Wikipédia e a procurarem as canções do Cantor e procurarem nelas numa inspiração para um poema ou breve conto. Se for possível incluírem a Natureza nesse trabalho então tanto melhor.

Marco Paulo – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Paulo

 

Estas são as nossas fotografias para inspiração:

flor1.JPG

flores4.JPG

Adicionalmente, ficam aqui alguns poemas inspiradores:

Fim, por Viviane P. (Brasil)


São sequências de infinitos caminhos....
Um meu, um teu e um do mundo.
E, aqueles encontros programados ou não,
Não são mais possíveis nem agora , nem nunca.
Minha trajetória mudou,
E nem fui eu que escolhi, na verdade.
Mas, ainda com essa perspectiva de fim,
Tão iminente, tão presente,
Não posso esconder dentro de mim,
Outro sentimento que não seja amor,
Amor demais, de várias formas latente.
Pois, se nunca é muito tempo,
Para o amor, imagina a eternidade!

 

CAFEZAL EM FLOR, por Judite O. (Brasil)
 
Como é bonito um cafezal em flor
e nele eu vivi desde a tenra idade,
deleitando-me com o seu olor
e o lindo verde da tonalidade.
 
Nosso cafezal perdeu seu vigor
ao chegar à sua longevidade,
ficando inviável o seu labor,
mas deixou para nós muita saudade.
 
meu cafezal, nós temos semelhança,
repletos de vigor quando criança,
mas o nosso destino é desigual.
 
Perdemos o vigor aqui na terra,
no entanto a nossa vida em Deus se encerra
e vivemos a vida imortal.
 
na XIV Coletânea da Academia Taubateana de Letras
2018, ATL - Academia Taubateana de Letras
http://academiataubateanadeletras.com.br/

 

DOÇURAS, por Claudete S., Brasil

Escorrem de mim atravidas doçuras,
de achar tudo deliciosamente delicioso.
O tempo colore as horas com saborosas iguarias,
sempre novas, disponíveis,
podendo ser lambuzadas,
salpicadas,
pingadas em todo lugar.
Cabe em mim esse universo de criança,
em que não existe tempo,
as horas se esparram,
caudalosas,
em agitadas travessuras.


E ainda o inicio de outro Poema.

VIM TE VER

Vim te ver, pois sei que o sol apareceu no teu dia,
vim te ver, pois sei que me invades quando de mim foges,
quando não percorres destinos
e não sabes para onde ir.

[...]

Para descobrir o Poema na sua completude, o melhor será contactar
a Autora, em
"Fazendo Amor com o Universo em Versos"

Qualquer pedido para: claudete@msrg.com.br

 

Um profundo obrigado a todos quantos têm aguardado por esta edição do Concurso Natureza.

Até breve, e um grande abraço com votos de muita Saúde.

Domingo - O Conto “Ilha de Santa Luzia” por Luísa F. - Pandemia

por talesforlove, em 22.11.20

Boa tarde.

Hoje apresentamos um conto por Luísa F. (Portugal) o qual foi premiado na Antologia Natureza 2018-2019. Nestes tempos de pandemia, recomenda-se cuidado na proximidade social em qualquer circunstância, de tal forma que as nossas vidas não sejam ainda mais afetadas. Neste momento, já temos a esperança de uma vacinação algures nos próximos meses.

 

Recomenda-se a leitura do conto “Ilha de Santa Luzia”.

 

Ilha de Santa Luzia


Quando me sentei, senti-os moverem-se debaixo das minhas pernas, sem os ver,
verdadeiramente, como se fossem transparentes; chamavam-lhes caranguejos fantasmas por terem a cor da areia fina e se confundirem com o ambiente. Tive
a clara impressão de estar em família e a sensação estranha de já ter estado
naquela ilha, a única com nome de santa no arquipélago das ilhas Afortunadas.
Por respeito a esses fantasmas tão familiares, por medo do ridículo, mas também
por ignorância, não me atrevi a falar no assunto ao meu pai, Branco (apesar de
ser um ilhéu muito tisnado) e um dos biólogos daquela pequena expedição.
Pedro era o seu assistente e tinha como missão principal a proteção da cagarra
de Cabo Verde, uma ave que nidifica no ilhéu vizinho e que o seu próprio pai
tinha caçado durante trinta e cinco anos, assim como muitos outros pescadores,
por se tratar de uma atividade tradicional. Milhares de crias foram dizimadas
nessa época, e não apenas as cagarras mas também os rabos-de-junco, com as
suas longas caudas, os alcatrazes, parecendo cavalheiros de nariz comprido, as
almas-negras de plumagem escura...que eram depois vendidos como cagarras.
Pedro achava que tinha uma dívida pessoal perante a natureza, contraída pelo
seu pai; mas, no seu entender, cabia-lhe a si e aos outros jovens devolver à ilha
essas espécies quase extintas.
A minha história começara muitos anos antes de eu nascer, mas os episódios
mais marcantes que recordava da infância eram os pesadelos frequentes com
enormes gatos e ratos vindos sabe-se lá de onde, que engoliam crias de aves
cujos ninhos estavam encravados na terra como pequenas manjedouras ou
berços de palha. O pediatra da altura descartou a hipótese de apneia do sono
mas tentou inteirar-se da nossa história familiar. Não foi difícil para o meu pai,
solteiro e dedicado, perceber que a explicação se encontrava naquele espantoso
lugar, que visitaríamos um dia. Explicou-me o que eram animais exóticos:
— Não são, como pensamos, aqueles animais estranhos e com um aspeto
diferente, fora da rotina e muito extravagantes, sabes? Quer dizer, não são só
esses; exóticos e invasores, para nós, são animais que vêm de outros sítios, de
outras terras e climas, estranhos à forma de vida da terra onde nos encontramos.
Exótico, como emigrante ou imigrante, como estrangeiro, está relacionado com
o nosso ponto de vista.
O meu pai não sabia exatamente o que era ser criança, porque ele próprio tinha
sido criado assim pelos meus avós, Luzia e Vicente. Quando as explicações se
alongavam, eu adormecia ao som das suas palavras, do alto dos meus seis anos,
sabendo que nessa noite não voltaria a ter pesadelos mas talvez sonhasse com
belas aves, com peixes-agulha e peixes-voadores muito curiosos e ágeis, com
águas cristalinas através das quais se viam os nossos próprios pés e o fundo do
mar.
Luzia era uma mulher falsamente seca e voluptuosa, que tinha abandonado a
ilha na década de 1970 com Vicente, quando ambos andavam pelos trinta. Não
se sabe em que circunstâncias se terão lá fixado, pois fizeram segredo disso até
à hora da partida, que ocorreu de forma misteriosa, depois de terem criados os
dois filhos, Branco e Raso, cujos nomes homenageavam os ilhéus vizinhos (os
outros dois integrantes da reserva natural), formando o que se tornaria, em
1990, património público, em conjunto com a ilha de Santa Luzia, deserta, mas
não solitária, ou, por assim dizer — deserta por deixar de sê-lo. Nessa época já
os dois irmãos tinham atingido a maioridade.
Acontece que a minha avó não engravidava porque a ilha estava interdita à presença humana,
salvo raras exceções, como eles, alguém que se batesse pelas espécies nativas; mas ainda assim
a santa exigiu que em troca da promessa de fertilidade o casal batizasse os filhos com os nomes
dos ilhéus circundantes, que seriam para sempre os seus orientadores de carácter e mentores,
quando os pais já não pudessem cumprir essa função por darem por terminada a sua vida terrena
(depois de se terem banhado em águas claras e convivido com as mais magníficas espécies de
aves da região, e aprendido a dar os bons dias aos caranguejos-fantasmas).
Os filhos vieram, assim, após inúmeras preces, depois de Vicente ter subido à
Topona, o ponto mais alto da ilha (quase quatrocentos metros acima do nível do
mar) e aí ter rogado a Santa Luzia que os abençoasse com descendência. Vicente
parecia por vezes um pouco distante, porque reservado, mas podia mostrar-se
também muito próximo, afetuoso e atento aos detalhes.
Luzia juntara-se ao marido nessas preces, apesar de estar cada vez mais
convencida de que era estéril; mas quando abandonaram a ilha tinham a certeza
de que seriam pais em breve. Santa Luzia era quem lhes poderia valer, por ser
mulher, por ser santa e por ser, também ela, desabitada de seres humanos.
Branco, o meu pai, ao contrário do meu tio, sempre tinha sido um cético e
escusava-se a falar de coisas que não pudesse explicar pela ciência, mesmo que
fizessem parte da sua história. A verdade é que oito meses depois dava-se ao
mundo, já com um tufo de cabelo como uma crista rochosa, e nove meses mais
tarde nascia o tio Raso, à distância de um olhar. Os dois irmãos sempre se
distinguiram em tudo, no feitio, no aspeto, nos interesses. Raso protegia dezenas
de aves marinhas que sobrevoavam as arribas aproveitando a riqueza das águas
que circundavam o seu patrono, de relevo quase predominantemente plano, e
seis espécies diferentes que aí construíam os seus ninhos. Era cada uma mais
bonita que a outra. O meu tio era um homem pequeno e castanho, mas bastavam
três dias de chuva para lhe converter o ar apagado numa exuberante alegria. Já
o meu pai tinha como mascote o lagarto-gigante, o qual, felizmente, nunca se fez
presente nos meus sonhos; constava que tinha sido extinto no início do século
XX, no entanto ele mantinha a convicção de que alguns espécimenes pudessem
ter sobrevivido nos rochedos escarpados do ilhéu Branco, seu homónimo e
padrinho.
Pedro e eu fomos dar uma volta pelos ilhéus antes de darmos por findo o dia em
Santa Luzia; contei-lhe dos meus pesadelos com gatos e ratos e ele confidencioume que começavam a ser um problema na ilha. Eram espécies exóticas — e não
pude deixar de sorrir ao lembrar-me das explicações detalhadas do meu pai.
Falei-lhe nos meus avós e com surpresa constatei que era um assunto do qual
não tinha o menor conhecimento. O meu pai não falava da família, era austero
e reservado, com um temperamento acidentado e espinhoso, a léguas do seu
irmão, plácido e previsível. Pedro apenas conhecia a lenda — a história que se
contava entre os pescadores — segundo a qual nos anos 1970 o casal que ali
vivia tinha abandonado a ilha de Santa Luzia.
Dizia-se, em conversas de homens do mar, que eles talvez não tivessem dali saído
e que ainda hoje andariam disfarçados de caranguejos confundindo-se com o
vasto areal para permanecerem em paz. Fiquei arrepiada com aquela
interpretação que assumi como uma revelação, uma vez que eu própria já o tinha
intuído. Mais um assunto que o meu pai não entenderia.
Estávamos em 2014, quando eu acabara de cumprir vinte anos e terminava uma
licenciatura em Biologia Marinha. Pedro mostrou-me as pequenas calhandras
do Raso e os seus ninhos no solo e eu tive que confessara-lhe que o meu pai
sempre me pedira que desse continuidade ao seu trabalho na proteção dessa e
de outras espécies exclusivas da região, que chamávamos endémicas. Tal como
as tartarugas-marinhas, também essas espécies estão em vias de extinção,
principalmente por causa da predação humana. Santa Luzia era um local onde
se fazia caça indiscriminada, longe dos olhares indiscretos, mas agora também
os pescadores estão sensíveis aos problemas ambientais e ajudam a protegê-las.
Entretanto os turistas não são ainda bem-vindos, assim como no tempo em que
Luzia e Vicente ali conceberam o seu primeiro filho.
Voltámos finalmente a Santa Luzia e junto com o resto da equipa rumámos a
São Vicente, mesmo em frente. Pedro e eu fomos ficando cada vez mais
próximos e decidimos acampar em Santa Luzia, completamente isolados,
enquanto tentávamos perceber como varia a fauna da região e procurávamos
conhecer-nos melhor. O meu pai acatava tudo o que fosse para o bem da região
e das espécies endémicas, porém reagiu com alguma desconfiança.

Prometemos trazer-lhe resultados em breve, para o convencer. O biólogo
concordava mas o pai resistia. A nossa rotina incluía a vigilância de ninhos de
cagarras para verificar o crescimento das crias. Pedro e eu pesámos
criteriosamente todas essas pequenas aves e sei que, nessa agradável rotina,
ele sentia que resgatava a dignidade do pai. A ilha já não era deserta, mas
tampouco era habitada: nós fomos privilegiados por, durante alguns dias,
poder acompanhar o pulsar da vida naquelas paragens. Agora fazemos idas e
vindas regulares com os pescadores, sem o pai de Pedro, que já cristalizou no
fundo do mar. Tentamos reintroduzir a raríssima calhandra em Santa Luzia,
essa ilha que nos habita e que apadrinha a nossa descendência.

 

Até breve.

 

 

 

Ao Domingo

por talesforlove, em 08.11.20

Poderá não ser apenas ao Domingo mas, em tempo de mais pandemia, justifica-se um pouco mais de partilha. Tentaremos publicar com maior frequência este mês de Novembro.

Fica aqui hoje um conto da Escritora Brasileira Maria Coquemala, incluído no seu livro FLASHES, publicado pela Editora Porto de Lenha (contato@portodelenha.com - Brasil). É um exemplo, claro da profundidade dos temas que procura abordar nos seus contos, de leitura agradável e convidativa. Fica o convite.

Logo que possível publicaremos um trabalho de outro Autor.

Até breve.

 

Settembrini

 

O tempo escorreu ao longo dos dias, meses, anos... Mas nítidas as lembranças do suceder de acontecimentos que nada neste mundo prenunciava. E como num filme de longa metragem, posso me ver e a eles, personagens deste relato que tomaria por inverossímil, não tivesse sido eu co-participante dos surpreendentes episódios no hospital, para onde tinha sido levada numa madrugada, acometida de dores.

            Nos dias de internação que se seguiram, embora com dificuldade, tentava continuar lendo um romance cuja trama romântica me atraía menos que as longas reflexões sobre a vida, a morte, o amor, a paixão, o tempo e a doença. Em especial, o tísico personagem Settembrini me fascinava, querendo salvar o mundo através da Arte, da Razão e da Ciência. Então interrompia a leitura, refletindo sobre suas belas teorias humanistas.

            E foi num momento assim que Settembrini, qual personagem pirandeliano, de algum modo estava no quarto, como descrito no livro, baixinho, meia idade, a fronte alta, os olhos negros, fios brancos nas têmporas, vestindo amplas calças de xadrez amarelado e paletó muito comprido. Inexplicável, mas nenhuma surpresa me causou. Apesar das vestes puídas, ali estava um cavalheiro.

            E sempre gentil me deu o braço, atravessei com ele o longo corredor do hospital, abrindo as portas dos quartos. Enfermos se levantavam de seus leitos, nos acompanhando. Cruzamos com macas, médicos e enfermeiros, ouvindo a tosse cavernosa dos tuberculosos, gemidos, sirene de ambulâncias... Amparada no seu braço, caminhamos lentamente para o jardim. Gotas da chuva recente ainda caíam das árvores, o ar estava limpo e fresco, apanhávamos folhas de ervas cheirosas pelo caminho, que recendiam, esmagadas pelas nossas mãos. Sentamos no banco de um caramanchão, os enfermos nos rodearam sentados no chão, e Settembrini se pôs a declamar na melodiosa língua italiana, um poema de DAnnunzio,

            Su le soglie del bosco non odo parole che dice humane,

            ma odo parole piu nuove  che parlano gotiole i foglie lontane...

            A sonoridade dos versos me parecia reproduzir os pingos remanescentes da chuva caindo sobre o solo, sobre as folhas, a beleza da criação poética humana se mesclando à da natureza. Então, entre outros versos de imorredoura beleza, Settembrini falou de Carducci, Petrarca, Leopardi, Virgílio, poetas que ele amava. E da sua luta, que era a de todos os humanistas, contra a ignorância e a maldade, em favor da dignidade do Homem.

            Como um professor consciente da sua autoridade, ciente da profunda atenção dos ouvintes seduzidos por suas belas palavras, falou da doença, da luta do Humanismo contra o conceito supersticioso de ser ela um nobre caminho para a perfeição do espírito, um caminho para o céu. Na verdade, enfatizava ele, uma humilhação dolorosa do Homem, um insulto à idéia, um rebaixamento que, no caso individual, pode merecer tolerância e cuidado, mas seria uma aberração homenageá-la espiritualmente, sendo ela o início de todas as demais aberrações espirituais.

            Uma enferma se referiu ao fanatismo religioso de todos os tempos, gerador de violência, guerra, sofrimento, morte, qualquer que fosse o nome da crença e dos povos que a tinham.  Da repulsa que lhe causava o sacrifício de animais, enfatizando a morte de cordeiros em cerimônias sangrentas ainda vigentes, dóceis animais, vítimas inocentes de religiões inexplicáveis.

            - Somente através do trabalho, através do progresso, o Homem será libertado da ignorância e da superstição, completava Settembrini.

            Ponderei que os erros dos homens nem sempre eram evitáveis, dado que podíamos traçar os rumos para nossa vida, porém rumos que forças universais condicionam. Mas Settembrini contra argumentava,

            - A inteligência humana sairá vitoriosa do embate com tais forças. Basta que a razão humana queira ser mais forte do que elas, e logo o consegue. E falou com entusiasmo do princípio do movimento, da rebelião e do aperfeiçoamento do mundo, que, por natureza, não é um princípio muito pacífico já que teria que vencer grandes obstáculos antes de triunfar em toda parte e antes de se realizar a república universal, grande e feliz”

            Alguém citou Lutero queimando a Bíblia em reivindicações de livre interpretação, atitude que certamente fora um dos fatores do Iluminismo.

            - E da fogueira luterana surgindo centenas de outras igrejas, numa verdadeira reação em cadeia, acrescentou outro, e cujos representantes, em sua maioria, muito ao contrário do libertário Lutero, se multiplicaram com suas verdades intocáveis.

            Outro enfermo começava a lembrar o Buda, a compaixão e a eliminação dos desejos, como necessários a uma vida tranquila, quando foi interrompido por uma mulher que começou a chorar e enxugando as lágrimas com as costas das mãos, emocionada, falou sobre o filho morto, que Deus levara por sua insondável vontade, as falas a remetendo ao tempo dele criança, adolescente, moço, e que só lhe dera orgulho e alegria. E o acidente no trânsito, a morte em plena juventude. O sofrimento, a revolta, a dor da perda se estendendo por dias e noites. Só na religião encontrara algum consolo. Religião que procurava levar a outras mães e assim preenchendo o vazio da própria vida. Vida de mulher pobre, um dia mãe solteira, casada depois, mas filho nenhum. Pela vontade divina. Um dia aconteceria o reencontro, assim acreditava. Chorando, desculpava-se com Settembrini, mas só a religião a consolava da dor maior da perda, da saudade sem fim que a acompanhava.

            Settembrini tomou-lhe as mãos, nada disse, chorou. Ele sabia ser tão grande no silêncio quanto expondo seus belos pensamentos.

            Alguém lembrou que se pode destruir em minutos o planeta inteiro só com as armas de arsenais americanos e, numa reação em cadeia, atingir até o Universo longínquo, cujos limites nem podemos imaginar, mas não se pode devolver o filho à mãe que grita em desespero. Pode-se destruir uma vida sob quaisquer das suas formas, desde as mais simples às mais complexas, mas é impossível recriá-la.

            Settembrini continuou calado, gentil e compassivo. Também me emocionara, ouvindo, pensando que a religião que eu desejava ainda não chegara. Religião de um tempo em que poder nenhum, divino ou humano, separasse mães e filhos. Um velho enfermo se perguntava até que ponto todos nós que não participáramos da vida do moço morto, que não cruzáramos seu caminho, éramos também inconscientemente responsáveis pelo seu prematuro fim terrestre. Pois nada lhe parecia individual quando se tratava do universo humano, num inter-relacionamento que parecia estender-se ao espaço sideral, ao universo inteiro. Responderíamos todos a um desígnio superior cuja explicação não se alcançaria, exceto pela fé? Ou a própria Natureza, indiferente à dor humana, comandaria a vida e a morte, nossa liberdade de escolhas nada mais sendo que uma ilusão, tendo em vista as nossas inteirações com outros fatores, definindo nossa jornada na Terra?

            Um jovem se referiu a Nietzsche, o homem que tinha tido a coragem de desafiar seu tempo, propondo a vinda do Super-homem contra as forças da ignorância e do atraso, mas que se tornaria ele próprio um sub-homem, doente, ferido no que tinha de mais privilegiado, sua mente maravilhosa. Ele, que declarara ser humilhante a compaixão. E que acabaria por tornar-se objeto dela.

            - A tragédia, acrescentou Settembrini, começa onde a natureza se mostrou para destruir, ou para tornar de antemão impossível a harmonia da personalidade associando um espírito nobre, cheio de vitalidade a um corpo pouco apto para a vida.       

            Alguém se levantou. Era um homem pequeno, magro escanhoado, de uma fealdade chocante. Apresentou-se como Naphta. Olhou-nos de tal modo que era como se soubesse ser ele o portador da verdade única, que expôs em palavras candentes,

            - Todos os castigos da Igreja, inclusive a fogueira, inclusive também a excomunhão, foram impostos para salvar as almas da pena eterna. Toda justiça que não brote da fé no Além é uma sandice bestial. E quanto ao aviltamento do homem, sua história coincide exatamente com a do espírito burguês. O Renascimento, A Época das Luzes, as ciências naturais e a economia política do século XIX, não ensinaram nada, absolutamente nada, que desfavorecesse esse aviltamento, começando pela nova astronomia, em virtude da qual o centro do universo, o magnífico cenário onde Deus e o Diabo disputaram a posse da criatura por ambos almejada, foi transformado num insignificante planetazinho e que pôs um fim provisório à grandiosa posição do homem sobre a qual se fundava a astrologia. A fé é o órgão do conhecimento e o intelecto é secundário.

            Fez-se silêncio perante a convicção do orador, ninguém querendo contradizê-lo.

            Mas, um velho enfermo, com voz tranquila, como se desculpando, falava,

            - Não se pode excluir da existência os nobres ideais de que nos fala Settembrini, razão de ser de uma vida, rumo à dignidade do ser humano. Como também não se pode excluir a fé religiosa de que fala Naphta. Nenhum de nós, como ensinou Platão, pode contemplar a verdade inteira. Sabemos desintegrar uma gota de água, mas não como reconstruí-la, como sabiamente  já se falou aqui em termos de vida humana. Que somos nós? Nosso corpo, nossas ideias e emoções, tudo energia num círculo vicioso, de que falava esse Nietzsche enlouquecido, condenados a um eterno retorno? Como saber? Quem é o Criador de tudo? Nossa mente não alcança. Tracemos, pois um caminho de respeito ao próximo, a suas ideias, emoções e crenças.

            Sua voz ainda provocava diferentes reações, quando Dr. Thomas, o médico pneumologista se aproximou, pedindo-nos que voltássemos aos leitos. 

            Um a um, enfermos foram retornando aos quartos, às enfermarias, as tosses ecoando pelos caminhos. Settembrini me conduziu ao quarto, sorriu, tirou o casaco úmido. Vinda do corredor, ouvimos a sarcástica gargalhada de Naphta. Então começou a tossir, o sangue escorreu do nariz, seu lenço branco se avermelhou. Passado o acesso de tosse, consternado e pálido, despediu-se e entrou no livro.

            Com o passar do tempo, a memória perde conteúdos de pouca importância, porém o registro do essencial no transcorrer da vida é preservado, ensinam os cientistas. São nítidas as minhas lembranças. Mas, hoje me pergunto se tais fatos ocorreram mesmo ou passageira alucinação, fruto do feitiço daquele personagem sedutor de A Montanha Mágica de Thomas Mann, o romance que eu lia no hospital.  Penso também nos medicamentos tomados. Na existência, não se sabe como, se redefinindo em outras paragens. 

            Como quer que seja, ainda hoje, anos passados, vejo Settembrini num gesto de nobreza daqueles que, como ele, acreditam na redenção do Homem pelos instrumentos da ciência, da razão e da beleza.

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Settembrini e Naphta são personagens de A Montanha Mágica, de Thomas Mann.

 

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"Espelho das lindas estrelas" por Ana M. (Brasil - 3º Lugar - Antologia 2018-2019)

por talesforlove, em 01.08.20

 

É incrível como tudo na natureza e no nosso universo está conectado de alguma forma. Um
exemplo dessa doce conexão são os rios e as estrelas.
Os rios são muito abundantes na região Norte do Brasil que é onde moro. Morar em lugar que
tem rio é muito bom, pois durante o dia eles podem servir de meio de transporte, principalmente
nas regiões um pouco mais afastadas das cidades e podem proporcionar diversão, pois sempre é
possível dá um mergulho e nadar neles. Um banho gelado que acalma um pouco o calor.
Já durante a noite os rios se transformam em um lindo espelho da Lua e das estrelas. Tanto que
tem até uma lenda indígena que fala de uma índia que mergulhou atrás do reflexo da Lua por
acreditar se tratar da própria Lua que ela tanto admirava. E em um local com muitas árvores é
quase como se as estrelas ficassem mais brilhantes, mais felizes por não terem que competir com
as luzes artificiais da cidade. É como se por alguns momentos o próprio rio adquirisse um pouco
do brilho delas. Na natureza admiramos as muitas belezas da criação de Deus.
O ser humano quer chegar cada vez mais perto das estrelas, sem entender que elas já estão
perto dele. Basta ele se conectar com a natureza para as admirar em toda sua beleza. Os olhos
humanos assim como os rios são espelhos das lindas estrelas.

 

 

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