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Contos das Estrelas

Neste blog são apresentados conteúdos literários. Para qualquer assunto podem contactar o autor via ruiprcar@gmail.com. Aceitam-se contributos de outros autores, de 4 a 24 de cada mês, relativos ao tema Natureza ou Universo :-)

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"A VIAGEM DO GRÃOZINHO DE AREIA" por Alberto A. (Itália - 2º Lugar - Antologia Natureza 2018-2019)

por talesforlove, em 01.08.20

A VIAGEM DO GRÃOZINHO DE AREIA

Antes do que o ar for criado, o céu era preto e a luz era dura, sem esfumaduras. Tudo era silêncio, as
árvores ficariam firmes... Na verdade, se querermos expressar toda a verdade, nem havia árvores ou
animais. Só uma paisagem fantasmagórica, feita de montanhas ásperas e vulcões. As rochas - que
pareciam cortadas com um machado - ressaltavam como silhuetas contra um céu sempre preto. Os rios
corriam impetuosos, negros como tinta, refletindo o céu. Um dia, do nada, uma pequena esfera
transparente começou a inchar, como uma bolha de sabão, tornou-se cada vez mais gigantesca, e em
seguida abriu-se e lançou o vento. Foi como um sopro de liberdade... O azul explodiu no céu e as águas
reverberavam-no com mil tonalidades. Finalmente, a vida das plantas e dos animais podia começar, as
árvores podiam roçar, alguém poderia ouvir o barulho do vento e das pedras caindo. O que tinha
acontecido? Um elfo, livre de herança e riqueza, implorou ao Criador para dar-lhe um sopro de vento,
algo que não custaria nada, apenas um sopro, e foi assim que houve o ar. Como todos sabem, a
respiração e a palavra não custam nada, mas são o mais que exista de vital. As cores se mexiam num
arco-íris iridescente com reflexões e transparências evanescentes, como as asas de uma libélula enorme.
O mesmo elfo que tinha aplicado para se tornar "mestre do vento", olhando no seu rosto reflexo em
uma poça de água, descobriu as próprias sombras e esfumaduras... Detalhes que faltavam até um
momento antes, quando seu rosto parecia uma meia-lua, meio claro e meio completamente preto.
Até aquele tempo, não havia pássaros nem outros seres voadores, até mesmo faltavam todos os
animais que respiram. Também faltavam as plantas, que precisam de ar para viver. Portanto, em toda a
Terra, apenas os elfos e os cristais foram testemunhas do evento maravilhoso. Os elfos contam isto em
suas tradições, que permanecem gravadas em uma veia de ouro puro, como em um livro secreto, na
parede mais escondida, na caverna mais profunda de todo o planeta. Esta página de sua história não
tem título "O nascimento do ar", mas começa com a frase: "No dia em que se viu o primeiro arco-íris".
Os elfos, de fato, não precisam de ar para respirar, mas ficaram tão impressionados com a grande
explosão das cores, como em uma bolha de sabão iridescente, ricas de tons e matizes, nunca vistas
antes, que marcaram a data, desde então e para sempre, como "tempo zero" de seu calendário.
A primeira rajada de vento levantou turbilhões. A coisa mais leve do mundo, na época, era um grãozinho
de areia, porque ainda não havia folhas ou penas. Esta é a história de um grãozinho que foi levantado,
nos desertos da Ásia Oriental, e começou a rodopiar com os redemoinhos de areia. Conheceu muitos
outros grãozinhos como ele, arranjou um monte de amigos e descobriu o mundo com gosto. Tanto
gosto que, a partir daquele momento, nunca mais voltou para o chão. Ele percorreu um caminho igual a
mil vezes em torno da Terra, mas - mesmo assim - não foi capaz de ver tudo. Nosso grãozinho ficou por
muito tempo confuso em uma nuvem vermelha, que girava acima dos desertos da Mongólia. Não poderíamos dar-lhe um nome mais familiar? O chamaremos Paulinho, permitindo-nos um pouco de
familiaridade, apesar de sua idade. Então, o grãozinho Paulinho se embarcou para uma longa viagem,
velejando com alguns amigos para a costa do Oceano, e então viu pela primeira vez, abaixo dele, o
verde das árvores.
Paulinho sentiu o fardo da umidade, quando o vento forte do deserto se mudou com a brisa do mar. A
viagem tinha-lhe - por assim dizer - entrado para a corrente sanguínea, e não queria parar. Sob ele
estava voando uma criatura estranha, nunca antes vista, com duas grandes asas abertas, deslizando
suavemente, e conseguindo assim pegar cada mínimo sopro de ar, de maneira que nunca descia da
altitude. Com uma manobra inteligente, Paulinho entrou em uma pena da asa desse grande pássaro.
Agora, ele poderia aproveitar a viagem sem se preocupar com a umidade ou com o calmo de vento. Ele
tinha certeza de que seu carreiro iria levá-lo para qualquer lugar do mundo, sem sequer fazer-lhe pagar
o bilhete. Veio porém um dia em que o grãozinho percebeu que seu transportador não estava mais em
movimento. Paulinho já não sentia a sensação do ar e percebeu que seu hospedeiro não podia mais se
mexer. Uma comoção, muito barulho ao redor. Bicos enormes batendo de todos os lados, para comer a
carne da ave que o tinha guiado pelos céus do mundo. De repente, tudo em volta dele ficou escuro e
Paulinho encontrou-se em um mundo de enzimas quentes e úmidos, ricos em ácidos e outras
substâncias estranhas que ele não conhecia. Foi uma sorte que a sua compleição forte, de quartzo e
sílica, lhe permitiria evitar ser digerido, e nem sequer ser atacado por todos aqueles sucos. Ele ainda
podia sentir o movimento da viagem, mas por um tempo não sentiu mais o ar por cima de si.
Finalmente, a libertação. Paulinho viu novamente a luz e logo se encontrou rodando em um céu
flamejante, feito de fogo ardente. Não era um pôr do sol tropical, mas a erupção de um vulcão enorme.
Paulinho de areia se viu apanhado no vórtice de uma enorme nuvem de cinzas, que pairava sobre o
planeta. De lá, via os continentes, mares e rios. Uma paisagem verdadeiramente estupenda.
Uma partícula minúscula de pedra-pomes se agarrou a ele. Paulinho nunca tinha-se visto a si mesmo em
um espelho. Naquele dia, sua amiga disse-lhe que era uma maravilhosa peça de quartzo iridescente,
uma gota de vidro vulcânico, que refratava as mais belas cores do espectro... Uma pena verdadeira, que
ela não se pudesse admirar!
Por muitos séculos, a nuvem da erupção cobriu os céus do mundo. Foi a longa lua-de-mel com a
Pomicinha sempre ligada com ele. Abaixo deles, as cores se tornaram obscuros. Era a sombra de sua
nuvem, que cobria e resfriava o globo. Na altitude, no entanto, que maravilha de luz e cores! Os
grãozinhos rodavam, arrastados por cada sopro de vento, para compor todas as tonalidades do arco-íris,
todas as reflexões, todas as transparências que podem sair dos jogos entre os minerais nascidos no
ventre da Terra. Nessa altura a Terra, vista do espaço, deve ter parecido um grande globo luminoso, ou
pelo menos cercado por uma espécie de lenço brilhante.
Ao longo do tempo, a nuvem era destinada a assentar-se. Um dia, finalmente, Paulinho viu a superfície
da Terra: quanto tinha mudado! Tudo era verde, o mundo era povoado por animais de todos os tipos. A
corrente de vento que levava os grãozinhos foi assentando-se. Foi então que Paulinho e a sua parceira
decidiram não parar nunca mais na superfície do globo. Era demasiado agradável viajar, levados pelo
vento, e ver o mundo mudando, com todas as cores e todos os seus perigos. Quantas vezes arriscaram de ser queimados pela erupção de um vulcão! Um par de vezes as correntes do ar, nas montanhas, os
levaram até os limites da atmosfera. Nessas altitudes, Paulinho viu novamente o céu negro acima dele,
como no início de sua existência.
As coisas ao seu redor mudavam. Os sopros de ar os arrastavam de cima a baixo, por todos os
continentes e sobre os mares, e faziam sentir vivo o Paulinho, com a sua parceira Pomicinha. Os dois, no
entanto, não mudavam, ficando sempre os mesmos que no primeiro momento da sua existência. Eles
nunca foram alterados, não respiravam, não cresciam, não estavam vivos. Durante a longa viagem,
suspensos no ar do planeta, tinham visto muitos seres vivos nascendo, crescendo, envelhecendo e
morrendo. Os dois, no entanto, como todos os grãozinhos de areia, mantiveram-se sempre iguais, como
no primeiro dia da sua existência. O ar era importante, essencial para o movimento contínuo, mas
podiam também existir sem ele. Até viam com maravilha que os seres vivos do mundo animal e do
mundo vegetal, nesse globo rico de cores, ao qual eles também pertenciam, não poderiam existir sem
aquela camada de ar, que não só dava-lhes as cores, as sombras, mas também o movimento e mesmo a
vida.
Um dia apareceu um longo cilindro branco, flamejante, subindo rapidamente, disparado a partir do solo.
Eles queriam experimentar a emoção de apanhar esse objeto: eles tinham ouvido dizer que era a mais
recente descoberta, em termos de viagens, e que poderia levantar-se muito mais alto, até onde
ninguém tinha ido antes. O longo tubo de metal branco foi rapidamente para o céu azul, mas alguns
instantes depois, o céu tornou-se negro, completamente preto e cheio de estrelas, como no primeiro dia
do mundo. Em princípio, Paulinho e Pomicinha não percebiam a sensação de viajar com uma velocidade
assustadora. Então eles viram debaixo deles o globo azul, que se tornava visivelmente mais pequeno, e
eles sabiam que aquele era o mundo em que sempre tinham sido, desde o primeiro de seus dias. Por um
momento, sentiram uma sensação nunca experimentada, um tipo de medo ou ansiedade, algo que um
grãozinho de areia nunca deveria sentir. O ar não estava mais lá, mas voavam, com uma velocidade
impressionante, no espaço profundo, sem ruídos, sem toques, porque não havia mais o fluxo de ar
sobre eles.
A expedição espacial terminou com um pouso na superfície da Lua. Com o impacto, os dois grãozinhos
de areia foram lançados a partir da casca do navio e caíram sobre uma pilha de poeira lunar. A viagem
de Paulinho e Pomicinna tinha parado. Nos céus negros desprivados da atmosfera, nunca mais poderiam
encontrar nem um sopro de ar para os levantar. Só podiam observar desconsolados - para sempre -
aquele grande globo azul, alto no céu da Lua, em que podiam ver ventos e tempestades a mover
continuamente enormes nuvens brancas, rodando em forma de espirales. Em Paulinho e na sua
companheira surgia, a partir de profundo, uma espécie de saudade.
O mundo do movimento contínuo tinha-se mudado para eles no mar da Paz Eterna, onde nada muda e
onde o céu é sempre preto. O reino da quietude eterna. Próximo a eles, plantado no solo da Lua, um
mastro com uma bandeira que nunca poderia bater no vento.

 

 

Até breve.

 

"Paisagem" por Sophia

por talesforlove, em 05.06.20

Paisagem

 

Passavam pelo ar aves repentinas
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra
escura.
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheiros onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
A sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo
Cuja voz ,quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.



Sophia de Mello Breyner Andresen | "Poesia", 1944

 

Até breve.

Uma música e letra muito de Verão

por talesforlove, em 22.07.17

 

Letra em Françês:

On ira écouter Harlem au coin de Manhattan
On ira rougir le thé dans les souks à Amman
On ira nager dans le lit du fleuve Sénégal
Et on verra brûler Bombay sous un feu de Bengale
On ira gratter le ciel en dessous de Kyoto
On ira sentir Rio battre au cœur de Janeiro
On lèvera nos yeux sur le plafond de la chapelle Sixtine
Et on lèvera nos verres dans le café Pouchkine
Oh qu'elle est belle notre chance
Aux milles couleurs de l'être humain
Mélangées de nos différences
A la croisée des destins
Vous êtes les étoiles nous somme l'univers
Vous êtes un grain de sable nous sommes le désert
Vous êtes mille pages et moi je suis la plume
Oh oh oh oh oh oh oh
Vous êtes l'horizon et nous sommes la mer
Vous êtes les saisons et nous sommes la terre
Vous êtes
 
Em Português:
Vamos ouvir a área de Harlem de Manhattan
Vamos corar chá nos bazares em Amman
Vamos nadar no leito do rio Senegal
E vamos queimar em Mumbai sob fogo de Bengala
Vamos raspar o céu abaixo de Kyoto
Vamos sentir a batida do Rio no coração de Janeiro
Vamos levantar os olhos para o teto da Capela Sistina
E vamos levantar os nossos copos no café Pushkin
Oh quão bonita ela é a nossa oportunidade
Mil cores do ser humano
Misturando as nossas diferenças
Na encruzilhada do destino
Vocês são as estrelas Nós somos o mundo
Tu és um grão de areia nós somos o deserto
Tu és de mil páginas e eu sou a caneta
Oh oh oh oh oh oh oh
Voçês estão no horizonte e nós somos o mar
Vocês são as estações do ano e nós somos a terra
Vocês são ...

 

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