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Contos das Estrelas

Neste blog são apresentados conteúdos literários. Para qualquer assunto podem contactar o autor via ruiprcar@gmail.com. Aceitam-se contributos de outros autores, de 4 a 24 de cada mês, relativos ao tema Natureza ou Universo :-)

Contos das Estrelas

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O livro da nossa Antologia

por talesforlove, em 11.01.22

Bom dia.

É com grande satisfação que hoje se partilha como foi recebido um dos exemplares da Antologia Natureza 2015/21 (Vol 0).

Foi com algum espanto que verificámos ter sido recebido como se vê na seguinte fotografia.

Livro.jpg

Espanto e alegria (irónica) pois se o envelope do livro foi rasgado e depois o livro lido, então isso significa que a literatura (de interesse) ainda move os leitores e a curiosidade alheia.

De acordo com quem recebeu o livro alguém pode ter "jogado à bola" com ele... Pois parece. Todavia, se assim foi, teremos nós um Ronaldo da Literatura?

 

Bom Ano de 2022, com Saúde.

Até breve.

 

 

 

 

 

A Antologia

por talesforlove, em 17.12.21

A Antologia já está disponível e começamos a enviar hoje.

 

recebido.jpg

Até breve.

Data prevista para a Antologia Natureza 2015-2021 em Papel Reciclado

por talesforlove, em 03.12.21

É com grande satisfação que informamos a data prevista para o início do envio da nossa Antologia.

Partilha-se ainda uma foto de líquen, uma espécie que é parte fungo e parte alga.

zz lichen2.JPG

Até breve.

A Antologia, Humbelina de Mattos e o Mar

por talesforlove, em 29.11.21

Porque a Antologia Natureza 2015/2021, em papel, contém um poema sobre o mar, aqui fica igualmente um vídeo sobre o filme Terra Nova, de 2021. O mar contém muita diversidade biológica e, por este motivo, deve ser igualmente o foco do estudo e antenção voltados para a preservação do ambiente. O mar dá-nos alimento mas também inspiração para a imaginação.

Mar, por Humbelina de Mattos, Brasil

Imprevisível em meu estado vivo
Sou o mar
Manso, leve e livre
Voraz, potente, exuberante
Guardo em minhas profundezas
Segredos , tesouros , lembranças
Objetos perdidos
Pra sempre, missing

[…]

 

Para obter um exemplar da Antologia, basta enviar-nos um e-mail.

Até breve.

A nossa Antologia Natureza

por talesforlove, em 18.11.21

Bom dia.

É com enorme satisfação que partilho a capa da Antologia Natureza, pela primeira vez em papel. Evidentemente, em papel reciclado! Contém alguns poemas e contos dos Concursos Literários e ainda sugestões amigas do ambiente.

Em caso de interesse, o contacto encontra-se no topo do blog.

imagemreduzida.png

Assinala-se ainda a data de nascimento de José Saramago, a 16 de Novembro.

Até breve.

Fogo de Vulcão e Fogo da Humanidade

por talesforlove, em 01.10.21

Recentemente, a erupção de um vulcão em Las Palmas, Ilhas Canárias, tornou evidente que existe poluição de origem natural e com impacto na saúde humana. Um artigo científico, sobre a atividade vulcânica nos Açores e seu impacto na saúde humana é o seguinte: "Sleeping volcanoes, awaking health issues: the hazardous effects of hydrothermal emissions on the human respiratory system" por Patrícia Garcia et al.. Infelizmente, este trabalho encontra-se apenas disponível em Inglês. Neste texto refere-se o impacto da poluição atmosférica através das vias respiratórias. Para evitar os efeitos nefastos, sugere-se, por exemplo, que quem vive em habitações térreas durma nos pisos superiores.
No conto seguinte, incluído na Antologia Natureza 2020-2021, refere-se um outro fogo, causado por ação humana. Também ele igualmente perigoso... Entretanto, fica a nota que ainda não foi possível iniciar a publicação de um conto em parcelas, periodicamente, tal como já referido anteriormente.

 

“Projecto Urano” por Alberto A.


Nos anos 1980-2000, a região do Corno da África foi “terra de ninguém”,
afundando sempre mais em uma sangrenta guerra civil. O tráfico ilegal
fundara por aí o paraíso internacional das descargas de lixo. Barcos,
carregados com lixo tóxico e radioactivo, viajavam da Europa em
direcção ao Oceano Índico. Recifes, caranguejos, lagostas, conchas do
mar, palmeirais e manguezais, o perfume de incenso e mirra, as memórias
épicas de comerciantes e viajantes... Todo aquele mundo ficou poluído,
submerso sob montes de lixo tóxico e radioactivo. Os marinheiros
pagavam as consequências, quando tomavam banho no mar.
Para resolver os problemas da poluição radioactiva na Europa, um
engenheiro realizou o “Projecto Urano”: torpedos, carregados com
escórias radioactivas, eram jogados no fundo do Oceano, ao longo das
praias da Somália.
No mês de Dezembro de 2004, um terremoto sacudiu a ilha de Sumatra.
Vagas gigantes, com até trinta metros de altura, atravessaram todo o
Oceano Índico. Houve quase trezentos mil mortos, mas as perdas ao longo
da costa africana não foram graves, pelo menos não em termos de vidas
humanas. A maré do maremoto arrasou e deslocou milhares de metros
cúbicos de areia, destruindo grandes extensões de recifes de coral,
trazendo à luz tambores, torpedos e recipientes de resíduos perigosos.
Muitos daqueles recipientes começaram a flutuar, abrindo-se e
derramando seu conteúdo nas praias.
Luminescências raras podiam ser vistas à noite, nos recifes, e a morte
de caranguejos e lagostas se espalhava como uma epidemia ao longo da
costa. Tapetes de peixe morto ficavam colados nas praias ao pé das
palmeiras. Centenas de animais no fundo do mar morreram de
contaminação. As populações costeiras relataram distúrbios raros:
anemia, inchaço, problemas respiratórios, insuficiência hepática.
Um pescador encontrou um pedaço de metal brilhante, preso no recife.
Ele tocou o cilindro e recebeu uma cruel sensação de queimação. O braço
enfraqueceu e a pele caiu, queimada, como se tivesse tocado uma
substância ácida. Então o cabelo começou a cair. Ele morreu lenta e
dolorosamente. Um fogo interior o devorou, nenhum médico, nenhuma cura
poderia salvá-lo. O que ele encontrara era lixo radioactivo, uma
pequena parte da imensa quantidade de lixo que os navios despejaram
na costa da região.
Mohamud era um menino de seis anos, brincava com seus amigos na praia.
À medida que a maré baixava, eles perseguiam os caranguejos. Com a
27
maldade ingênua das crianças, os chutavam, como se estivessem jogando
bolas.
Um dia, Mohamud viu uma caixa escorrendo um líquido verde denso e
vagamente fluorescente. O garoto tocou e esfregou as mãos, como fazia
com sabão. Foi o maior erro de toda a sua jovem vida. Desde então, o
menino foi consumido por uma dor terrível. Não comia, não dormia e se
contorcia, não conseguia mais se segurar nas pernas. Todo o cabelo dele
caiu. Ficou rapidamente debilitado. Para o nosso amiguinho,
infelizmente, nada podia ser feito. Mohamud ainda não tinha sete anos.
Quem sabe que o sacrifício dele – e de outros como ele – não constitua
o preço por que aquela terra, com seu mar, retorne à paz e à beleza
do passado? Queria lembrá-lo como um pequeno símbolo, uma gota no oceano
de sofrimento que continua assombrando o Corno da África. Um sacrifício
que pode nos convencer a salvar os povos, os mares, as praias dos países
equatoriais, paraísos condenados, em um mundo sem paz nem
desenvolvimento.

 

Até breve.

 

Antologia, Poesia, Setembro

por talesforlove, em 01.09.21

Caros Amigos.

Hoje partilhamos as duas Feiras do Livro do momento, em Portugal:

https://feiradolivro.porto.pt/

https://feiradolivrodelisboa.pt/

 

Igualmente, informa-se que quem desejar um exemplar da Antologia Natureza deve enviar um e-mail para o endereço no topo deste blog. Tanto valor como design estão a ser definidos durante os próximos meses.

A versão digital está disponível conforme descrito no regulamento do Concurso.

Fica uma imagem inspiradora, para quem desejar enviar um poema.

flores rosa pt.jpg

 

Até breve.

Trabalhos em Antologia Natureza 2020-2021

por talesforlove, em 13.05.21

Bom dia!

É com grande satisfação que se divulgam os restantes trabalhos premiados, a incluir também na Antologia Natureza 2020-2021.

 

Menção Honrosa: “Mar de Lixo” por Evandro Nunes (Brasil)

 

Além dos trabalhos nos primeiros lugares, serão ainda incluídos na Antologia 2020-2021 os seguintes trabalhos, sem ordem particular:

 

Poema “No meio do caminho…”Por Sónia Rodrigues (Canadá) VER

Poema “Cuidar do lixo é cuidar da saúde!” por Marcos Pontal (Brasil)

Poema “Ao pé da varanda” por João Araújo (Brasil)

Poema “CHUVA DE DIAMANTES” por Alberto Arecchi (Itália)

Poema “Mãe Natureza” por Vitor Gonçalves (Brasil)

Poema “Tempo” Priscila Carvalho (Brasil)

Poema “Rio Araguaia” por Deuzeli Linhares

Poema “Pequenas observações” por Noi Soul (Brasil)

Poema “Em busca do sonho” por Luisa Andrade (Brasil)

Poema “O clamor da natureza” por Jeanete Ferrão (Brasil)

Poema “Nova face de natureza” Luís Amorim por (Portugal)

 

 

 

Muitos parabéns!

Em breve, esperamos partilhar no blog os trabalhos com os primeiros lugares. Entretanto, fica um poema de Luís Amaro.

 

 

 

Nesta manhã de cinza

Debruçado à janela do meu quarto,

Contemplo a vida

E embalo-me e liberto-me num sonho.

                                          Luís Amaro

 

 

NOTA: A Antologia/Coletânea “Natureza 2015/21” contém alguns dos melhores trabalhos desde 2015 a 2021 que surgiram no contexto do Concurso Internacional de Literatura Natureza. Por existir uma versão do Concurso em Português e outra em Inglês, neste livro existem traduções de vários destes poemas e contos. Este livro é ele mesmo um exemplo de objeto que se deseja ser um caso de aplicação real dos princípios da sustentabilidade, pelo que, nele também se encontram as razões pelas quais essa sustentabilidade é verdadeiramente efetiva neste caso. Listam-se ainda algumas sugestões amigas do ambiente e das pessoas. Em resumo, trata-se de um sonho literário, que ao longo de 120 páginas A5 vai mais além do que este breve texto explica.

Para obter um exemplar contacte através do e-mail no topo do blog. Obrigado.

Até breve.

“A grande extinção” por Joaquim B. - Antologia 2019 - Portugal

por talesforlove, em 09.02.21

A grande extinção


Albbano chegou cedo ao “Fetal”, com o coração de sangue frio em agonia. Na véspera,
vários dos seus torossauros poedeiros davam mostras de mal-estar e doença. Alongou o olhar
pelo extenso paúl em que habitualmente pastavam e não pôde evitar o desalento. Só meia
dúzia ainda era visível. Em ansiedade, apressou o passo para a chocadeira central.
O sol iniciava o percurso descendente sobre a área predominantemente agrícola que
será conhecida, sessenta e cinco milhões de anos depois, por Lourinhã e se estende bem para
dentro do espaço que será mar no futuro. Em todos os ninhos urbanos terminaram já as
diligências alimentares do período zenital, exceto no ninho de Albbano. Não é comum ele
atrasar-se, quanto mais não aparecer em tempo de tão vital necessidade. Almmina mantinha
quentes as fatias de ovos de anquilossauro com caules tenros de rhynia, enquanto, inquieta,
espreitava o caminho, na esperança da chegada iminente do companheiro. A certo momento,
achou que tamanho atraso não podia significar nada de bom e resolveu pedir ajuda ao filho de
ambos, através do comunicador. Alccino não se surpreendeu com a chamada da mãe, porque
era frequente ela ligar-lhe só para contar pequenas peripécias domésticas, mas quando ouviu a
voz angustiada da mãe a dizer que o pai ainda não chegara para se alimentar, entregou de
imediato as tarefas de extração salina que executava numa bacia marinha interior e correu a
procurar o pai. Já não era a primeira vez que ele se perdia ou dava sinais de desorientação.
— O teu pai saiu do ninho mal raiava o sol e disse que ia ao Vale Fetal, como todos os
dias — informou ela. — Estamos na época em que eclodem muitos ovos e é preciso não haver
descuidos com as dificuldades das crias.
— Está bem, mãe, não te preocupes que eu vou procurá-lo. Assim que o encontrar,
comunico contigo — sossegou-a ele.
Alccino transpôs rapidamente a distância até à exploração pecuária do pai. Com o olhar
percorreu as suaves ondulações cobertas de polipódios, onde pastavam pachorrentamente
uma dúzia de torossauros, e a tentar discernir que animais chafurdavam na lonjura dos paúis
das zonas baixas. Não viu a silhueta altiva do pai, um parassaurolofo corpulento, mas um pouco
dobrado pela idade. Entrou na chocadeira central, e os funcionários disseram que o tinham
visto cedo, mas que ficara abatido quando soubera de mais três eclosões goradas.

Alccino pediu a dois para, em conjunto, fazerem uma busca na exploração.
— Eu vou pela encosta do lado esquerdo, e vocês procurem no vale, junto à zona
húmida! A propriedade é grande e ele pode estar caído em qualquer lado.
Embora achasse que era mais provável encontrá-lo nas zonas baixas, pensou que, em
cotas mais elevadas podia avistar maiores distâncias e descobri-lo. Após um tempo de
caminhada atenta pela vertente da ladeira, alcançou o alto da colina. Cheiros adocicados
embebiam-no. Por momentos, abstraiu-se do que o trouxera ali. Olhou em toda a volta. Para
norte, a vista admirável e querida do seu Vale Fetal, com o verde de vários matizes a colorir a
distância até à vertente oposta e mais além. Para sul, a dois vales de distância, as manchas
redondas e ocres dos ninhos urbanos da povoação. Mais perto, os vales dos vizinhos e amigos
Olvvonos e as suas explorações pecuárias de alamossauros, os enormes herbívoros ternos e
pachorrentos. Seria possível que o pai tivesse vindo visitar os amigos? Antes de decidir procurálo junto dos vizinhos, pensou entender o que acontecera. O pai tinha ficado desanimado com as
notícias da manhã na chocadeira e, com a idade, isso desorientara-o. Veio-lhe à memória outro
episódio de há muitos anos, quando uma epidemia lhe matara dezenas de animais. Nessa
altura, foram encontrá-lo amodorrado numa enorme rocha lisa virada ao sol do oeste, donde se
avistava o mar e aonde só se chegava por uma vereda. Avisou a mãe e pôs-se a caminho.
Realmente foi encontrar o pai alapado na Pedra do Poente em grande prostração. A
crista, habitualmente alaranjada, era agora cinzento-esverdeada. Não parecia ferido, só
abatido. Aproximou-se suave, mas não furtivamente. Queria ajudá-lo, não invadir a sua
privacidade.
— Então, pai! Está aqui! Estávamos a ficar preocupados...
Não obteve reação. Albbano mantinha um olhar de enorme tristeza perdido na lonjura.
Nada parecia poder animá-lo.
— Não fique assim, pai! — disse Alccino cheio de ternura. — São só mais três ovos
gorados. Já aconteceu muitas vezes.
O rosto do ancião baixou, em dor interior, sem responder.
— Tem de aceitar, pai! Os tempos de fartura e fertilidade já lá vão. Este é o mundo que
temos agora.
Alccino comunicou com a mãe a sossegá-la e continuou a tentar animar o pai, com
argumentos racionais de relativização dos prejuízos. Finalmente, Albbano começou a falar em
voz baixa, pausadamente.
— Não são só mais três ovos gorados, filho! Nós estamos a extinguir-nos. O ambiente
está envenenado com os compostos de irídio que servem para tudo. As crias não conseguem

romper a casca. Está cada vez mais dura e inquebrável. E não é só com os animais. Como já te
contei algumas vezes, para tu nasceres, houve que quebrar a casca artificialmente. Nós, os
parassaurolofos, praticamente já só nascemos de crustatomia. Se não fossem os cuidados
obstétricos, desaparecíamos. O panorama geral é preocupante. As crias não conseguem romper
a casca, os ovos não são fertilizados, as populações de todas as espécies estão a diminuir a um
ritmo assustador. Todos os anos desaparecem muitas espécies para sempre.
Calou-se, por momentos, como que a lembrar-se de outros exemplos. Alccino respeitou
o silêncio do idoso.
— A destruição da vida no planeta, tal como a conhecemos, está a tomar proporções
gigantescas. Dantes, além, avistava-se o tremeluzir da superfície do mar. Agora, o que se vê são
reflexos de objetos a flutuar. Mantas de tralha a cobrir enormes áreas de oceano. Há quanto
tempo lá não vais? É triste, deprimente, apetece não voltar lá mais. Como nos deixámos chegar
a esta situação? Estamos mesmo em perigo, acredita!
Fez uma pausa, a ganhar alento.
— Eu vou-me informando, sabes! Recebo revistas científicas. Já houve outras épocas da
Terra com indícios semelhantes e que resultaram em enormes extinções. A maior foi há 185
milhões de anos, que fez desaparecer 96% das espécies marinhas e 70% das terrestres. Devido
à gravíssima situação que atravessamos, os cientistas já lhe chamam a Extinção em massa do
Cretácico, a época atual, ou a Quinta Extinção. Estão registadas cerca de 800 espécies extintas,
nos últimos quinhentos anos, mas, como a maioria não está documentada, os cientistas
calculam que é mais provável que se tenham extinguido entre vinte mil e dois milhões de
espécies, só no último século. E, tendo em conta os limites do conhecimento atual, a taxa anual
de extinção pode chegar às 140.000 espécies. Estamos no limiar da catástrofe.
Alccino agachou-se, abatido pela força terrível dos números que o pai lhe atirava. A
preocupação com o desaparecimento do progenitor desvanecera-se, mas agora um peso
inesperado acabrunhava-o. Como era possível que nunca tivesse ouvido falar disto?
— Percebes, agora, porque estou desanimado, sem esperança? — interpelou-o
Albbano. Há muito que me vou dando conta do que os cientistas vão divulgando.
— Mas, pai — reagiu Alccino —, não são só teorias malucas de tipos que veem um
mosquito e lhes parece um alamossauro? É que eu nunca ouvi falar disso…
— Não, Alcci, quem afirma que a extinção atual é um facto são cientistas conceituados
entre os seus pares. Dão conferências, mostram dados, mas parece que ninguém os ouve. E
dizem mais; dizem que somos nós — a espécie dominante —, que estamos a provocar a
extinção em curso. Com a caça intensiva, a introdução de organismos perigosos para os nativos,
a destruição dos habitats naturais, a desflorestação, a sobreexploração agrícola, a poluição e o
envenenamento com agrotóxicos e hormonas pecuárias. Isto, sem falar do problema que está
na raiz de todos estes: o crescimento populacional contínuo da nossa espécie e o consequente
sobreconsumo.
— Mas sempre houve espécies a desaparecer de maneira, digamos, natural, pela natural
seleção natural…
— Sim, só que com a nossa ação, a que alguns também chamam natural, mas de
extensão e intensidade avassaladoras, a perda de biodiversidade é dez a cem vezes mais rápida.
E seremos nós que acabaremos por pagar um preço demasiado alto, pela rápida diminuição do
único conjunto de vida que conhecemos no Universo. Ficaremos sozinhos.Sem a concorrência
que vencemos, extinguimo-nos também.
— Isso não pode ser assim tão dramático, pai. Nós somos a espécie mais bem sucedida
de toda a história do planeta...
— Este sucesso começa a parecer demasiado catastrófico. Quando há tipos que, como
eu, prestam atenção aos problemas ambientais, também não sabem como resolvê-los ou
ajudar a minorá-los. A minha “solução” hoje foi esta: deprimir-me. A da nossa espécie devia ser
positiva, assertiva, concertada, global, muito profunda. Eu não quero mostrar-te para onde
deves olhar, só gostava que tomasses consciência de que há muita coisa a distrair-nos e que
nos deixamos alegremente ocupar com problemas menores. A maior razão da minha
desesperança é que não acredito que algum dia consigamos inverter o caminho de razia que
trilhamos. Quando deteriorarmos o planeta a um nível irreversível, seremos nós a extinguirnos. Ironicamente, essa pode ser a solução para o planeta: livrar-se de nós.
Albbano calou-se. Pai e filho mantiveram-se pensativos ainda por algum tempo. Talvez por ter
desabafado, Albbano começou a sentir-se com forças para regressar. Em passos brandos,
porque já anoitecia, dirigiram-se para casa, em silêncio. Por cima do horizonte, ia nascendo o
cometa, que, havia meses, iluminava as noites em todo o mundo. A enorme cauda ocupava já
todo o lado nascente do céu. Caminhando para aquele clarão, pareceu-lhes que a esperança
num mundo renovado aumentava no seu ânimo.

 

Até breve.

José Saramago em 2020

por talesforlove, em 01.02.21

O ano 2020 foi um ano atípico, por causa da pandemia. Nele acabamos por encontrar todas as fragilidades possíveis dos seres humanos. 2021 continua a ser 2020. O calendário mudou mas tudo continuou, o que em boa verdade, já seria de esperar pois o vírus não tem nada a ver com o nosso calendário.
Ficam os fogos de artifício extemporâneo resultado de uma vontade reprimida de normalidade. O Autor deste blog não participou nesta alegria tão desprecavida mas compreende-se esta situação, quem a pode criticar?! Mas temos temos de esperar que o vírus se vá embora ou fincando que não seja uma ameaça.

Ironia foi o filme "O Ano da Morte de Ricardo Reis" ter estreado no ano em que a morte começou a estar presente no nosso dia a dia. Que falta de pontaria! À tragédia das salas de cinema fechadas somou-se o tópico do filme. Veja-se o filme de apresentação, do Inglês trailer, algo que eventualmente poderíamos traduzir de forma mais resumida como cinpub (ou cinematográfica publicidade). Fica a sugestão para uma nova palavra.

Fica ainda uma sugestão de áudio livro para a obra de José Saramago, a qual bebe inspiração em Fernando Pessoa.

Audio Livro:

https://www.bing.com/videos/search?q=o+ano+da+morte+de+ricardo+reis+trailer&&view=detail&mid=B2895CC97F058B39E08DB2895CC97F058B39E08D&rvsmid=331A5FEE166A0ECE01C8331A5FEE166A0ECE01C8&FORM=VDQVAP

 

Finalmente, para que fique claro que vale a pena confinar, que vale a pena aguardar pelo Verão, fica aqui uma música com um bom ritmo, por Zé Amaro. Pode ser que a variante Europeia do Covid-19 vá de férias no Verão e nos deixe em paz, afinal está claro que prefere as temperaturas mais baixas, ao contrário da variante Amazónica.

 

O Zé Amaro é um Artista que buscou a sua inspiração na música Brasileira, por sua vez inspirada noutras fontes.

Veja-se um pouco mais sobre ele em:

Zé Amaro | Costa e Ramos

 

Ainda um poema “A essência” por Getúlio O. (Brasil,

Poesia da Antologia 2018-2019)

 

Gosto dos andares tortos

De insetos felizes.

Admiro o soldadinho alvinegro

Que busca o amarelo, ao invés

Da roupa branca do homem engomado.

Sinto a fragrância do mato

Como estivesse sentindo um perfume francês.

Tenho bem querer por pessoas

De almas sorridentes.

Prezo olhos que sorriem

Mais do que bocas que se amostram.

O essencial não está no que se vê,

Mas no que se sente.

 

Entretanto, qualquer que jeja a vossa idade, sejam responsáveis: protejam-se!

Até breve.

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